sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Só agora?

Ao tempo que a malta já aprendeu isto! (Ai perdão! Ai perdão. Assim é que é. Ai perdão.)

(Mas os histéricos podem não é? É que eu sou! Histérica.)

E também está aqui e aqui. Mas repito, ao tempo que a malta já sabe disto.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Não me parece bem fazer AUTOPROMOÇÃO


Sei que estavam habituados à contínua invasão deste espaço por pessoas que ficaram traumatizadas com o fim do curso, e assim insistiam, amiúde, na postagem de historietas neste blogue, mais ou menos psicóticas (e passadas na França). Éramos naturalmente felizes em presentear-vos com os nossos delírios. Porém, demos conta do verdadeiro problema, certa vez, na Sala-de-Espera de um consultório médico para o mal dos nervos: o verdadeiro trauma não foi o fim do curso, mas sim a falta de bolinhos, no fundo, o pai e a mãe do nosso frenesim, das nossas inquietudes. Nesse mesmo consultório fomos aconselhadas a dispor da blogosfera para tratar do problema, faz-se muitas vezes, uma terapia de grupo virtual (fórum, blogue conjunto, por aí). Bom, aqui, nesta casa era evidentemente complicado (não há bolinhos, certo?!) e além disso é um espaço sagrado, comum aos hóspedes do piso nove do hotel Amazónia, e cuja memória não deverá ser importunada por algum tipo de, vá lá, ligeiro avacalho, que possa advir das sessões de terapia. Uma vez que o curso (o workshop), foi o catalisador deste problema, resolvemos arranjar uma solução politicamente correcta. Ou seja, criámos uma dependência (tipo clubista) desta casa. Mas com bolos!

Na verdade, certas mentes criativas, numa brincadeira por email criaram uma série de alteregos, que em comum têm o gosto por bolos e a quadrilhice “erudita”. Decidimos aproveitar a ideia para fazer um novo blogue (é um palacete ali para os lados de Bucelas, com um dálmata de unhas doiradas à porta, que faz au au au quando se chegam estranhos, ou o carteiro ).

Por isso não estranhem se esbarrarem neste universo blogosférico com uma casa parecida com esta. Somos nós, a comer bolos e a mandar bitaites sobre a vida :)

E pronto (visitem-nos)
Abraço a todos

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Sequeira Costa na Gulbenkian

A não perder, dias 01 e 02 de Abril. Porque não é todos os dias que temos o privilégio de ouvir ao vivo este grande pianista português

terça-feira, 17 de março de 2009

Rap do amigo Lucas

Nando gosta de ser amado

YEH

Nando não está nada ralado

YEH

Nando vai contrariar o fado

YEH

E vai casar apaixonado

YEH

cá estamos :)

Levitava quando se afastou dela. Podia jurar não sentir os pés em contacto com o chão enquanto corria de felicidade, impossível de conter. Corria. Não que gostasse particularmente de correr mas era premente chegar depressa ao pé do seu grande amigo, Lucas, seu confidente de toda a vida, para lhe contar. Talvez escrevesse uma letra. O Lucas é rapper e decerto encontrará a batida perfeita para as suas palavras. Para levar aos ouvidos de Maria o quanto a quer, o quanto está feliz com o namoro. Corre. Esquece-se que corre, também, na direcção do bairro onde tem sido miseravelmente infeliz. O amor adoça a vida e neste momento Fernando não consegue pensar em mais nada.

O Primeiro Beijo

A campainha toca e o pátio fica subitamente vazio. Mais rápido que o habitual. Pelo menos foi o que lhe pareceu, quando se deparou só com ela e com a inevitabilidade de a beijar. Apesar imponência do Bloco C – o das aulas de matemática, que não inspirava propriamente, sentia que aquele era o momento. Que o mar tinha recuado, que estava um calor danado e o sol a pique. As mãos transpiradas procuraram abrigo numa pequena sombra que vinha da caleira de zinco. Largaram os cadernos ensopados e exploraram os bolsos de trás das calças de ganga em brasa. Os seus olhos lá se encontraram e fizeram as habituais juras para a eternidade. Ele tentou esquecer por momentos o seu primeiro beijo, concentrou-se neste, comandou-o da forma que tantas vezes imaginara, desavergonhadamente diferente do outro, nervoso, tímido e acanhado. Ela devolveu-lhe os lábios com submissão, indiferente ao coro imberbe que soava na janela ao lado. E ao sabor do outro, seu primeiro beijo.
p.s. inspirada por Nando e Maria :)

Namoro

Fernando ama Maria. É a frase que o Nando vai grafitando, pela noite dentro, nas paredes nuas dos bairros vizinhos ao seu. Fernando ama Maria, nome completo. Tão completo como o amor que lhe enche o peito e ameaça o colapso dos pulmões sempre que Maria se lhe cruza nas escadas do velho prédio, ou no barracão improvisado de sala, lá no liceu. Já nem consegue reter na memória as vezes que lhe tentou pedir namoro. E foi por isso, que numa noite de devaneio, pegou no saco das tintas, e abandonado no desespero da sua incapacidade vocal, pintou na parede em frente ao prédio de sua casa um poderoso e enigmático “Queres namorar?”. Nessa noite Maria tinha ido aos Fados. Chegava tarde, e foi com surpresa que leu na parede outrora branca, na frente do prédio de sua casa, aquele extraordinário e tão aguardado pedido. A mesma surpresa que destinou ao seu amado, quando lhe deixou colado à porta com pastilha elástica, e escrito no verso dum bilhete de metro já usado, as mais bonitas e esperadas palavras de amor. Para o Nando. SIM. Beijos Maria.

segunda-feira, 2 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Isto não é fácil

Nos raros rasgos de lucidez que experimenta Boris sente-se devastado. Olha para Anna a seu lado, no jardim da suposta residência francesa e apetece-lhe chorar. Apetece-lhe esvair-se em lágrimas de desconsolo. Mas não pode. Por ela que já partiu há muito, há que manter a farsa. Anna: cujo corpo vagueia ainda aqui, a seu lado, roçando-lhe a roupa e a alma. Anna que parece nunca esquecer o amor que os entrelaçou para sempre, desde a primeira troca muda de olhares. Anna que perdeu porém, também para sempre, a noção do real. Sabe que a demência de que padece há anos haverá de o levar de vez. Como a ela. Há muito que ela partiu e não mais regressou. Há anos que ela vive a “outra vida”. Mantêm-se unidos pela memória de um amor teimoso, incólume à passagem do tempo e ao avanço da demência. Boris sabe de forma irrefutável que também para ele há-de chegar o dia em que não conseguirá encontrar o caminho de volta. Sabe disso porque ela se perdeu de vez e ele não quer continuar aqui sem ela. Sem ela tudo perdeu a graça. Hoje já não há encanto. É cada vez mais difícil discernir entre o que lhe aconteceu realmente nos seus 34 anos de vida e o que foi fruto da sua (da dela) imaginação insana. Recorda com uma doçura magoada a sua vida outrora normal, com Anna. Não Anna, porra. Isabel. Anna já é dos tempos de loucura. Anna já é dos tempos de Anna e Boris e de todas as outras pessoas que inventaram para apimentarem os dias. Começara tudo por brincadeira. Casaram demasiadamente jovens e fartos que estavam de uma vidinha banal e morna resolveram reinventar-se. Juntos. Se havia coisa de que não duvidavam era do amor que nutriam um pelo outro. Começou por ser coisa de fim-de-semana. Mas cedo perceberam que as brincadeiras e os fetiches já não chegavam. Os chicotes e as flagelações já não os excitavam. As trocas de nome constantes não os preenchiam. As viagens revelavam-se insuficientes. Desvanecera-se o frémito pelos terminais dos aeroportos. Queriam sentir mais. SENTIR MAIS. Queriam ultrapassar-se e viver a sua e outras vidas. Viver desalmadamente não temendo perder. E das trocas de nome, passaram para pessoas imaginadas que rapidamente transpuseram as fronteiras das suas mentes e passaram a povoar-lhes os dias. Davam-se ao trabalho de dar jantares a convidados imaginários em que a mesa era posta a rigor, as melhores garrafas de vinho eram abertas, postas a respirar e saboreadas. A melhor música passava na aparelhagem. E eles os dois dançavam a dança da insanidade. Os dois somente, rodeados das pessoas que quiseram inventar para si. Enlouqueceram juntos, António e Isabel. Boris e Anna. Tanto fazia já. As pessoas que outrora fizeram realmente parte das suas vidas afastaram-se. Olhavam para eles incrédulos. Tentaram ainda, durante muito tempo os mais fiéis, fazê-los ver o que acontecia mas de nada servira. Repudiavam-nos, clamavam legitimidade para fazer o que bem entendessem das suas vidas. E os amigos desistiram. A família desistiu. Um por um saiu de mansinho daquelas duas vidas incompreensíveis. E eles cada vez mais sós, mais se enredaram na insanidade conjunta. Assim enlouqueceram irreversivelmente, António e Isabel. Assim viveram aventuras com envelopes pardos e soros da verdade. Assim frequentaram juntos sessões de psicoterapia que ao invés de os fazerem regressar ainda lhes estimularam mais a imaginação e o devaneio. Assim andaram por Paris e por Lisboa em carros de alta cilindrada. Juntos. Foram pai e filha, amantes, assassinos, espiões armados até aos dentes, foram inimigos e amigos, foram mulheres e foram homens, partilharam e fugiram da realidade "dos outros", juntos, sempre juntos, até ao fim.

O dia em que tudo começara fora o dia em que no prato do gira-discos rodava o vinil com Clair de Lune de Debussy. Melodia com que chegou Oddville às suas vidas. Um homem que mais ninguém conheceu. A partitura que António mais gostava de interpretar, quando tocava de forma magistral o seu piano. A música maldita que de quando em vez, o obriga a regressar à cruel realidade, aquela para a qual já não é possível resgatar Isabel. O seu único e verdadeiro amor, igualmente responsável porém, pela sua desgraça. Pela sua morte. Pela morte e desgraça de ambos.

Olha para o líquido onde diluiu a dosagem fatal com que planeou a morte dos dois. Contempla desolado a bela mulher que tem a seu lado alheia ao plano, ingénua na sua ausência irremediável. Agita a garrafa acima da cabeça diante dos olhos e pensa:

É chegado o fim?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

......

Só se ouviam os seus passos, pancadas secas e cúmplices rasgavam o silêncio da noite. Percorriam jardins da residência francesa, lá dentro Oddville jazia o último sorvo de prazer.

Caminhavam sem se tocar, quer dizer, tocavam-se um pouco. Os seus casacos roçavam mangas, os seus passos ensaiavam o mesmo ritmo. Não era só impressão, eles iam falando assim. Boris sabia que ela tinha cometido mais uma loucura. Ainda bem pensava ele, Oddville era alvo a abater, ninguém melhor que Anna para produzir finais grandiosos. Restava a encenação do derradeiro final, aquele para onde parecia caminhar com ela, ambos lúcidos e aparentemente cientes daquilo que queriam.

Convergiam, por entre sombras mudas para a parte do jardim mais denso. Anna ensaiava as palavras finais, o envelope já não era importante, pensava ela. Não passava de um pretexto menor, o maior, era afinal, Boris. Roçavam mangas. Ela sentia o torpor mole que vinha dele, com isso a angústia ténue e um bocado de amor. Nunca fora capaz de matá-lo. Porquê? Logo ela, de ágil mestria assassina. Talvez ainda se amassem, talvez se tocassem mais que aquelas mangas de casaco, talvez se tocassem constantemente, insinuavam a morte um do outro como se a dança da dor fosse a do amor. A morte trágica era implícita, mas sabida, a música deles. O ideal louco, segredado, composto, executado naquela Partitura que também jazia, há anos dentro de um envelope. A brisa húmida das folhas comovia-a, inebriava-lhe os pensamentos loucos, desconexos, estupidamente crentes.

Boris comandava a passada. Alheio àquela opereta ridícula que viajava no cérebro ao lado.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Resposta a "instantâneos criativos"


Como o tempo é escasso e a família exigente, antecipando a dificuldade de estar convosco nos próximos fins-de-semana, não quero deixar de contribuir com esta imagem recolhida no "Comporta Café". 
Partilho convosco este "instantâneo criativo", e confesso que não resisti a fotografar o candeeiro porque gostei particularmente da feliz mistura de cores.
Até breve!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

(Um convite entre parêntesis)

Estava para aqui a pensar: e se então num destes sábados ou domingos próximos organizassemos uma passeata criativa por Alfama ou pelo Castelo, de maquina digital na mão, a registar espaços ou atmosferas, que depois de seleccionadas pelo próprio e colocadas aqui no blog (máximo 2 a 3 imagens por pessoa - ainda tinhamos de definir) fossem elementos obrigatórios de uma história a criar por cada um dos participantes.
A finalizar a coisa podiamos até petiscar um brunch no Pois Café (o meu novo espaço de eleição ao fim de semana, se bem que longe de casa).
O que acham?
Ps - Convite extensível às caras metades, caso assim o desejem!

...

Sabia que a crise estava prestes acontecer novamente. Já não era novidade e sabia bem identificar os sintomas da sua própria doença, além disso o corpo desmembrado de Oddy, revelavam a existência do primeiro ataque, e a experiência dizia-lhe que muito em breve viria a segunda leva. As crises tinham começado há muitos anos atrás, quando ainda era pequena. Pequenas elipses de consciência, foi a designação exacta dos médicos. Buracos negros no cérebro, foi a explicação simplista da mãe. Uma imagem que a aterrorizou praticamente durante toda a sua meninice e boa parte da adolescência. A resignação de que era diferente. Incapaz. Doente. Mas não tinha uma doença qualquer, era uma doença das boas, daquelas que se alojam na mente. Daquelas que nos afastam de tudo e todos. A escola passou por isso a ser o inferno na terra, e o local primeiro para testar as qualidades mestras que tal condição lhe reservava. No inicio não se tinha apercebido bem das vantagens da sua condição. Acordava nos locais mais estranhos, com manchas de sangue nas mãos, ou na roupa, junto a objectos que não eram seus, mas que assumia como recordações. Não sabia bem do quê, nem sequer de quem, mas transmitiam-lhe uma inexplicável sensação de poder e prazer absoluto. Era frequente, nos dias seguintes que se seguiam a estes episódios, surgirem nas notícias locais, informações sobre crianças desaparecidas, ou vítimas de ataques violentos. Tão violentos que deixavam marcas para a vida; o agressor tinha por fetiche a manietação. Preferência para olhos, língua e mãos. A polícia sentia-se exasperada pela falta de provas e a incapacidade destes miúdos em recordarem qualquer indício que fosse que lhes permitisse porem-se no encalço do atacante.
Foi lentamente que Anna tomou consciência de que era a responsável pelas atrocidades que recheavam as noticias e inebriavam de pânico a população em geral. Mas o que lhe ressaltou desse momento foram as habilidades que os seus “buracos negros da mente” lhe possibilitavam. Do enorme poder que se revestia durante os “apagões”. Nunca, por um único segundo, lhe ocorreu a crueldade.
A mãe, uma mulher de fraco espírito mas profundamente dedicada ao marido e aos filhos, terá sido a única aperceber-se das coincidências dos blackouts e, particularmente, da escolha minuciosa que parecia estar inerente ao processo de selecção das vítimas. Mas antes que Anna pudesse ter encontrado forma de a silenciar, a mãe diligenciara com uma enorme dor e capacidade de resistência à exasperação manifestada diariamente pelo pai, em a internar num sanatório para doentes do foro mental, pertencente à ordem religiosa das Carmelitas, certa de que a proximidade a Deus e à Ciência, a fariam retornar ao caminho dos comuns.
Mas Anna não era uma pessoa comum, e logo-logo encontrou forma de o demonstrar.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Talvez o 20, mas não sei bem

Repugnava-a o toque. A proximidade física do agressor. O beijo indesejado. Mas sabia que era fundamental aparentar com excelência o êxtase. Respira fundo Anna, disse para si em surdina, falta pouco, muito pouco. Era essa esperança que a acalentava. A sede de vingança. Deixou a mente divagar para a sala dos fundos, para a tesão contida do seu grande amor, para a tortura psicológica que sabia lhe havia incutido em todos os poros do seu corpo, para a degradação mental sem retorno. O passado de abusos sexuais, não o deixaria escapar à loucura ao imaginar-se com desejo pela própria filha. A filha imaginária. Inexistente. O feto morto no vão das escadas do Hotel Papillon. Exultou com a ideia de o ver sofrer, de o ver pagar.
- Deixa-me foder-te Erika, roga-lhe Oddville, com a respiração entrecortada pelo desejo incontrolável.
- Então, então, caro Oddy, já sabes que não é esse o nosso jogo – responde-lhe com escárnio, ciente de o ter já ganho como joguete neste desafio pela morte.
- Não aguento mais, preciso de ti, continuava ele, ao mesmo tempo que lhe procurava levantar a saia, na tentativa vã de lhe arrancar as cuecas, e colocar-lhe o sexo a descoberto.
Afastou-se dele e despiu a camisa e a saia. Via-lhe o sexo erecto tal qual animal enclausurado em luta pela liberdade, ao dislumbre da sua semi nudez, e não pode deixar de sentir prazer. Apesar de todo o asco, excitava-a enormemente a imagem dum velho como Oddville a desejá-la com tamanha sofreguidão
- Despe-te, ordenou-lhe ao mesmo tempo que retirava da pasta Hermés, o chicote feito de crina de cavalo lusitano, oferta bondage do seu último amante. Um português. Cirurgião. Plástico. Horácio Quintanilha. O mesmo que a encontrou praticamente moribunda no quarto do hotel de Paris, aquele com os debruns cor de rosa. Aquele em que tinham deixado para morrer. Aquele em que o seu grande amor a tinha deixado para morrer. Foi Quintanilha que lhe restituiu a vida, a alma, o desejo, e a sede de vingança. Era um homem bom e por isso fácil de manipular. O seu fetiche sexual ajudava. Restitui-lhe também o rosto e o corpo como se os anos não tivessem passado, e foi ele que a renomeou de Erika. O mesmo nome, que anos antes havia escolhido para a filha que carregava no ventre. A filha por nascer. Coisas do destino ... ou não.
- Põe-te de quatro – ordenou com revigorada raiva a Oddvile.Olhou para a triste figura que se prostrava aos seus pés. E não conseguiu deixar de rir com prazer. Oddville todo nu, aos seus pés, como um cão, um cão não, não porque os cães são seres fiéis e companheiros. Um porco, sim um porco a chafurdar na merda. Sentia a raiva a crescer, e apoderar-se do pouco bom senso que ainda lhe restava. Tinha sido Oddville o mandante do seu assassinato, e era chegada a hora do retorno.
Chicoteou-o. Uma, duas, três vezes. O porco parecia gostar. Ordinário!
Sentou-se nas suas costas e ouviu-lhe o gemido de prazer. Acariciou as crinas rebeldes do chicote, e num movimento circular de mãos, rodeou-lhe o pescoço.
- Sabes Oddvile, soprou-lhe ao ouvido entre chupadelas que sabia lhe aumentavam a tesão - vou-te contar uma história. Uma história que te quero contar há muito. A mesma que esperas encontrar no ficheiro codificado que está no envelope cor parda. Comecemos pelo título, a ascensão e queda de Michael Oddville, agente do MI-5, continuava a sussurrar-lhe ao ouvido enquanto lenta e dolorosamente apertava nas mãos as crinas que torneavam o pescoço do seu pior inimigo, e o sentia a perder a vida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

# 19

Boris entranhou-se no cadeirão em pele, patriarca, girou-o para a janela. Chovia, deixou-se ficar estendido, ainda ofegante. O suor escorria-lhe pelos dedos que afagavam a barba do rosto ocupado. Os subúrbios de Paris eram extraordinariamente belos vistos daquele ângulo, pensou. Geometricamente perfeitos, os jardins. Aparentemente intrigantes, mas de uma coerência absoluta. Uma imagem que se desenhava na sua cabeça, agora lúcida, incrivelmente lúcida. Tão escabrosa como a última porrada de chuva.
Epifania.

A proposta de Oddville, com o desenho abstracto da trama. A sua negação, resoluto. A suplica de Anna, interlúdio libidinoso. A jovem bailarina queria espectáculo. Obscena, a primeira insinuação de seu amor farsante. Tentava-o para tragédia e para uma grande composição. O sacrifício lógico, maior, acabou por fazer ceder o músico. Boris aceitou a proposta de Oddville, embarcou naquele avião que o atirava para uma melodia perfeita, vida e morte, partitura completa.

- E o envelope?
- Continua sem falar.
- Reconheceu-te?
- Não, o imbecil insiste que está morto, forjou um plano perfeito, a dormência que lhe convinha, não sente culpa.
- Mas medíocre, disse Oddville, enquanto os seus dedos torneavam o copo de whisky, e hábeis palmearam o que interessava.

Aproximou-se dela, esforçou o indicador competente e acariciou-lhe a cintura de porcelana pela última vez.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

#18

A cadência da sua dança a inebriá-lo. Monta-o como quem lhe conhece o colo há uma vida.

- Desde quando?

Ela não responde e lambe-lhe os lábios. E brinca consigo explorando-o com a língua. Ele pouco resiste. Sempre se sentiu diferente. Sempre se viu monstruoso. Capaz de tudo. Mas disto não se recordava mesmo.

Náusea. A música maldita que lhe regressara aos ouvidos. O deleite em simultâneo. Culpa. A incerteza insidiosa, agora, de um passado em que o inominável parece ter-se repetido até à exaustão. A forma como lhe conhece o corpo não é de agora. Percorre-o de forma certeira, como se, se satisfizesse a si própria.

Os traços que recordava não eram, afinal, os de Anna? A última lembrança de Erika, era a dela criança ainda, pendurada no seu pescoço, numa qualquer despedida. Quando e em que circunstâncias se teriam reencontrado. Passar-se-ia isto desde então? E a culpa a fugir-lhe pelos poros, em cada beijo que recebia, em cada movimento sôfrego, no corpo da própria filha. Tudo se encaixava. Aquelas sessões ridículas no consultório de Vozone. Aquele escavar agressor da sua intimidade em busca disto. Delicioso. Pensa e ri-se com gosto. Talvez o quisessem chantagear para que entregasse o envelope. Desconcentra-se. Ela olha para ele de forma cúmplice e continua ritmada. Ele alterna entre a repulsa e o desejo. Não lhe parece que seja ele o carrasco. É ela quem comanda o que acontece. É ela quem brinca com ele, qual Lolita. Mas isto é pior. Isto é muito pior.

Sou pai dela. – Vai repetindo mentalmente.

Ela como se lhe adivinhasse os pensamentos acelera, brinca com ele, quer vê-lo rendido, desnorteado.

- Diz-me onde está. – Sussurra-lhe ao ouvido, puxando-lhe os cabelos na nuca, enquanto endurece os movimentos. Pancadas secas na estante. – Onde é que está o envelope paizinho?

Começa a trautear a música que o persegue há meses, ignorando-lhe o pedido e ela pára petrificada. Levanta-se de rompante, com os olhos marejados de lágrimas, deixando-o vulnerável e despropositadamente erecto, agora que não o acolhe. Abandona-o no escritório naqueles preparos, atirando-lhe um último olhar de desprezo. O olhar que ele lhe deveria ter merecido enquanto o fodia, afinal de contas, é seu pai.

E jamais um pai deveria sujar um filho desta maneira.

- Mas afinal que música é esta?

E acaba sozinho o que ela começara, com um sorriso estúpido de prazer no rosto, ainda alheio ao que o esperava.

(Imbecil.)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

# 17


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

#16

- Bebe.
Disse Erika, sentada à sua frente num escritório à patriarca, pejado de calhamaços e odor a tabaco.
- Onde... onde estamos?
- No escritório de Oddville. Ainda gostas de whisky irlandês, certo? Old habits die hard.
Ele agarrou o copo com a mão trémula e o gosto apurado. Sim, soube-lhe bem. Pela vida. Até tinha uma única pedra de gelo, como ele gosta. Contudo, o trago valente não lhe reavivou a memória.
- Submeteram-te a hipnose. Deram-te o soro da verdade, já ouviste falar?
- Não...
- Também não interessa. Avançaram pouco. Estás bem fodido, tu... - e sorriu, genuína, dir-se-ia divertida. Como uma criança.
Ele não teve tempo de fazer outra pergunta. Erika antecipou-se.
- Temos pouco tempo. O que queres?
- Respostas. Primeiro...
- Sou filha da Anna. Tua filha.
- Sou um assassino?
- Depende. É um substantivo com uma carga demasiado negativa. Para mim não.
- Porquê?
- Porque o homem que mataste é o assassino da minha mãe.
E aqui ela foi resoluta, cortante. Ele não teve tempo para duvidar. Lembrou-se das próprias mãos ensanguentadas no pesadelo. Cofiou a barba à procura de tempo.
- Não queres saber quem é Oddville?
- O homem que me contratou. Pelo menos é do que me recordo. Mas...
- Oddville não te quer para nada. És um adereço da peça protagonizada por um certo envelope.
- Não sei do que falas.
- Mentes mal. Mas isso já eu sabia.
- Desculpa, mas não faço a mínima ideia de onde te conheço. Não me lembro de matar ninguém. Talvez seja o choque, o trauma de...
- Achas que foi por isso que resolveste apanhar o avião?
- Não sei.
- Escuta. Posso contar-te tudo, explicar-te até porque deixaste crescer a barba, mas temos pouco tempo e preciso mesmo que me digas onde está o raio do envelope. As nossas vidas dependem disso.
Ficou confuso. As nossas. Plural? Porquê esta cumplicidade, este laivo de mulher sincera vindo de quem ainda há pouco lhe apontava uma arma? Anna morta, Anna morta, sim, começa a assentar-lhe como um sereno curso de água no campo. É verdade e ele sempre soube. Não é como se lhe chocassem a amnésia garantindo-lhe que é, de facto, o Presidente da República.
- Não te lembras mesmo, não é? - e Erika deita uma mirada rápida à porta entreaberta enquanto deixa cair uma alça do vestido e se aproxima, com vagar. Contorna a mesa do escritório, volta a espreitar o mundo atrás da pesada porta de mogno e só agora ele dá conta de que está sentado no lugar dominante desta cena, como um patrão a receber a secretária no escritório. Ela senta-se sobre a sua perna direita e sorri.
- Q... que estás a fazer?
Erika entrelaça as mãos em redor do seu pescoço e, mesmo antes de fechar os olhos para um beijo de culpa demorada - o inominável, o inominável, o inominável:
- Não querias respostas, pai?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

#15

Tinha guardadas as roupas ensanguentadas. O abre-cartas antigo sujo. E uma mecha de cabelo. (Arrancada com violência ou cortada premeditadamente?) Ainda assim duvidava. Algo lhe gritava que não lhe pertenciam esses indícios. Alguém o tentava baralhar. Alguém queria que acreditasse na morte de Anna. Só assim desistiria de a procurar. E a esperança teimosa a bater-lhe no peito. Estará viva?