segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Talvez o melhor perfil


pelo João Camolas


Zé Manel é amolador. Toda a vida o foi. Nunca conheceu outro oficio. Aliás, descende de uma longa linhagem de amoladores. o pai era, o avô também. o tetravô tinha inclusive amolado as pratas e polido as jóias de família do rei D. Carlos o que, noutras condições, seria motivo de orgulho.
É um homem rude à primeira vista, mas também à segunda. Não sorri. É daqueles tipos impenetráveis a quem custa exprimir mais do que duas palavras. Quando não se faz acompanhar pela sua bicicleta, movimenta-se em silêncio, de tal modo que passa discreto pelo mundo. É um homem perturbado e aparentemente sereno.
Zé manel tem 50 anos. é um português típico; nem alto, nem baixo. Moreno, olhos negros e tez queimada, encardida, severamente fustigada pela idade. Tem um cheiro demasiado usado, gasto do tempo, mas muito intenso. É entroncado e “seco”, como é de esperar de alguém que percorre a pé as 7 colinas de Lisboa, soprando na sua gaita há mais de 40, sempre sem tirar os olhos do chão. A barba usa-a por fazer e quando a corta é com uma das suas facas o que lhe dá um aspecto severo e ainda mais áspero. O cabelo usa-o sempre curto.
Não tem amigos nem família. Apenas duas grandes paixões: as mulheres - putas, rameiras e quanto mais reles melhor –, diz que "o fazem sentir mais homem"; e o Benfica. Perde horas com as duas. De manhã enquanto traga a sandes de queijo e sorve a mini "do costume", na mesma tasca suja há 30 anos, e discute, em duas palavras de cada vez, as notícias do “glorioso” lidas, ali mesmo, nas paginas do Correio da Manhã – a sua bíblia. À noite, enquanto ciranda pelas ruas, as "do costume" há perto dos mesmos 30. Zé Manel nunca se exalta nem transpira.
A paixão doentia por prostitutas deriva da relação com a mãe, mulher-a-dias beata que recebia senhores nas horas vagas e abusava repetidamente do filho, obrigando-o a dar-lhe prazer sempre que saía um dos amantes. "ajudada a limpar o pecado", dizia ela. A devoção por Deus da mãe, ajudava sim a compreender a distancia com que Zé manel encarava hoje a igreja – à distancia.
Ainda assim ouve a Rádio Renascença, religiosamente. É a sua companhia que chega por um velho transístor, durante as caminhadas em busca de clientes, e também como cliente.

Tem apenas um vício: estripar prostitutas.

Diogo


o perfil da personagem criada pela Joana Mil-Homens


Diogo tem 34 anos. Vive com os pais aos fins-de-semana e, durante a semana, vai para Coimbra onde finge estudar economia. É um homem grande e desajeitado, quase como um gigante-bebé. Tem uma barba arruivada e sempre bem aparada, que costuma “acarinhar” quando está concentrado. Do pescoço para cima tem um aspecto cuidado, que contrasta com o aspecto “pingão” das roupas que veste. Tem uma vaidade dissimulada. Gosta de sweat-shirts, t-shirts largas e de ténis berrantes. Gosta de verde, não sabe bem porquê, até porque é benfiquista ferrenho. Tem um andar lento e arrastado, um olhar intenso, que afasta os que não o conhecem.
Filho de pais juristas e austeros, tem uma relação quase edipiana com a mãe. Adora-a e sofre porque sabe que a desilude com o curso que não acaba. Revolta-se também pela distância que ela deixou que se construísse entre eles, pelo automatismo quotidiano que caracteriza a sua relação. Com o pai quase não fala. Olha para ele com desprezo pelos valores que ele sempre perseguiu e rejubila por o ver confinado à figura de idoso.
Tem uma excelente relação com o irmão, mas este vive longe, em Braga, onde lecciona filosofia na Universidade. Suspeita da homossexualidade do irmão, mas não tem coragem para aflorar o assunto.
Diogo tem em Antonioni o seu realizador predilecto. Gosta de ler os escritores existencialistas e de policiais. Tem uma cultura assombrosa que se recusa a partilhar a menos que pressionado (ou impressionado). Tem uma certa arrogância em relação ao seu saber. Em Coimbra, leva uma existência quase patética: tem os mesmos amigos dos tempos em que entrou para a faculdade. Que entretanto se tornaram adultos, facto que Diogo tem dificuldade em aceitar. Perde-se nos dias a ler livros e a ver filmes, ocasionalmente arranjando companhia com raparigas que pouco lhe interessam mas que suprem as necessidades do corpo. Ouve American Music Club, Vincent Delerm e Richard Hawley, entre outros. Gosta de dizer que ouve música “sóbria”. Quando bebe, tem uma queda para música Soul, mas quando sóbrio nega essa tendência.
Aos fins-de-semana, que religiosamente passa em Lisboa, tem o grupo de amigos do colégio e do liceu. Um bando boémio, e imaturo, onde Diogo alcançou o estatuto de intelectual. Encontram-se de noite e discutem futebol (conseguem discutir detalhes de jogos decisivos para a época de 88/89), o Y do Público e mandam bitaites sobre política, enquanto enfrascam minis em série. Acabam a noite no Lux. Uma rotina com mais de uma década que ninguém quer deixar, embora as responsabilidades adjacentes à vida adulta façam com que os amigos de Diogo estejam a perder o ritmo frenético que os caracterizou em épocas anteriores.
Mora em Alvalade em frente à Igreja, apesar de ateu convicto. Gosta de Lisboa e de tardes na cinemateca, mas Lisboa significa viver sempre com os pais. Em Coimbra tem uma falsa sensação de independência – continua a receber mesada dos pais. Sabe que em Coimbra se rodeou de pessoas muito distantes do meio social em que cresceu (Lisboa, Colégio), mas sente-se mais confortável entre eles do que com aqueles que lhe lembram as suas falhas.

Creacionismo

um sketch muito subversivo do João Gante
Lettering tipo Coca-Cola. Todo o sketch é acompanhado pela música do anúncio da marca de animação sobre o que se passa dentro de uma máquina de refrigerantes, mas num tom religioso mais pesado, com sinos de catedral e coros.

Um casal está deitado na cama, num quarto onde só entra a luz do candeeiro da rua. Estão ambos muito vestidos – anoraks, casacos, etc. Ele beija-a, a câmara entra pela boca dela, onde se vêem 32 anões com ferramentas, em vez de dentes. Um orbe de luz aparece de repente e avança para o esófago. Este é uma cascata verdejante, por onde caem perninhas de frango, bolinhos, etc, todos muito perfeitos e simbólicos. O orbe chega ao estômago, onde é recolhido por um anjo numa quadriga de pégasos brancos, que o transporta por cima de um lago verde ardente, onde alimentos gritam e suplicam enquanto ardem no líquido escaldante. A salvo numa ilha no centro, um padre lê-lhes, aos gritos, do livro “A Gula”, enquanto lhes atira Alka-Seltzers efervescentes.
A quadriga chega, através de uma estrada de nuvens negras e trovejantes, à entrada do útero, que se assemelha a uma velha porta de catedral com querubins. Dois velhos monges cegos abrem-na. O orbe entra. Nas paredes de lado, portas com placas alinham-se: “Cozinha”, “Armário das Limpezas”, “Carreira” (fechada com correntes e cadeados). A pequena luz entra na porta “Descendência”. De cada lado, uma porta. Uma diz “Artistas” e outra “Cientistas”. Delas emana fumo negro, um brilho laranja-fogo e gritos horrendos. O orbe passa por um pórtico em mármore branco. Lá dentro, a imagem de Deus da Capela Sistina usando óculos ao meio do nariz carrega em vários botões e faz um gesto de bem-vindo ao orbe. Este aproxima-se de vários jovens adultos que parecem dormir em pé. Os homens usam fato e as mulheres uniforme de empregada doméstica. A luz pára em frente a um homem, sob o qual se lê “Consultor”. O orbe avança para o homem, este acorda, olha para o relógio, vai-se sentar a uma secretária e puxa de um papel dizendo PPR, que começa a ler.
Volta ao casal, um brilho branco emana por entre a muita roupa da mulher. Ela e o marido viram-se para a câmara, sorrindo enquanto, atrás deles, Jesus abre os braços, feliz.
Um caçador avança por um prado rodeado de coelhos que farejam o ar. Vai atirando para o ar e a cada tiro caem moitas, couves, o Moita Flores e outros vegetais. Ao último tiro, uma vaca cai-lhe em cima.
Muda para o Jantar do Clube Vegetariano da Lapa, onde velhotes ricos comem alface mas usam peles. Todos parecem olhar para uma televisão na ponta da mesa, e abanam a cabeça em tom reprovador.

domingo, 16 de novembro de 2008

ponto da situação



Sim, continuamos por agora neste poiso porque o Sapo pede mais requisitos prévios que uma virgem à espera do príncipe encantado. Quando a produção de textos terminar será então porventura feito o transbordo.

Entretanto, avisai os cônjuges desconfiados e os amigos ciumentos do regresso ao lar, doce lar.

Atenção ainda à caixa de correio electrónico do workshop, onde já se encontram textos teóricos sobre matérias que vos farão enfim atingir a suprema e mais duradoura felicidade. Ou não.

Afonso Trindade de Noronha

Um perfil que é uma verdadeira AUTÓPSIA. Impressionante e da autoria da Andreia Moreira.
“Storyline”: Caberá uma vida inteira em duas pesadas sacolas? Pode o peso de uma existência ser suportado diariamente? Afonso acha que sim. Afonso sabe que tem de ser assim. Quando a catástrofe que pressente (paranoicamente), há anos, acontecer, irrefutável, quer ter tudo aquilo de que necessita consigo, para poder começar de novo onde quer que seja. Todos os dias para si são importantes porque encerram uma busca da qual só desistirá se morto. A busca pela Inês que conheceu e perdeu antes que pudesse, quem sabe, arrepender-se. Apenas o prenúncio do amor. Não o amor em si, mas já o suficiente para que viva uma vida inteira em função dele. É pena que nas sacolas não caibam o seu amigo João Faz e a sua Tia Gertrudes. Não pode sequer imaginar o terror que sentirá, aquando da catástrofe, por não saber deles.
Nome: Afonso Trindade de Noronha
Filho de: Augusto Albergaria de Noronha e Maria Ana Trindade de Noronha
62 anos de idade

Características físicas: Homem de estatura baixa (1,65m); muito magro; cabelo grisalho forte; ri-se sempre de boca fechada (uma meia-lua apenas) mas tem os dentes impecavelmente brancos e direitos; olhos quase negros; óculos demasiado grandes para a sua face, feitos de massa; barba sempre impecavelmente feita; nariz batatudo; tem um sinal por baixo do olho direito; moreno (mesmo no Inverno a pele tem um tom bonito, ligeiramente bronzeado); as orelhas são muito grandes mas não se vêem porque estão sempre tapadas pelo farto cabelo; mãos delicadas com os dedos muito longos, tem nas mãos regularmente eczema. Tenta minorar a possibilidade de infecção usando nos períodos em que o eczema ataca com mais força umas luvas sem dedos; os pés são enormes (calça 45); no braço esquerdo tem uma tatuagem com o par yin-yang; como come uma cabeça de alho todas as semanas, exala muitas vezes esse cheiro; não tem outro cheiro nos dias restantes; nunca teve uma doença grave (é 100% saudável) raramente se constipa (por causa do alho?); a sua voz é grave e muito bonita (poucas vezes fala); é muito discreto e quando se cruza pelas pessoas baixa o olhar fitando o chão, raramente as encara. Roupa que enverga é muito velha mas impecavelmente cuidada. Não se vê um buraco ou um remendo, contudo o seu ar é de pessoa sem recursos que vive no limiar da pobreza. Sapatos pretos velhos mas sem buracos; calças de fazenda que parecem dos anos 60; pullover, camisa e um blazer com reforço nos cotovelos, usa sempre uma boina preta. Ao ombro um saco muito pesado (o que é indicado pela curvatura do seu corpo enquanto anda) e na mão contrária a esse ombro, outro saco igualmente pesado que contrabalança a outra carga. São sacos grandes de pano muito resistente. Porte digno e aprumado apesar da antiguidade de tudo o que o compõe.
Socialmente: Nasceu em Lisboa, do cruzamento de duas árvores genealógicas de origens abastadas, teve infância muito feliz resultado do amor genuíno que unia os pais. Não fora um casamento combinado como usual à época e sim um encontro de duas almas. A partir do dia em que se viram pela primeira vez, jamais se voltaram a separar, mantendo no entanto a sua individualidade enquanto pessoas. Eram um casal saudável e feliz. Afonso cresceu sem preocupações. Quando a guerra nas antigas colónias portuguesas se tornou um destino traçado, fugiu. Desapareceu a todos (embora mantivesse sempre o contacto clandestino com a sua mãe) e esteve em Londres muitos anos, dos quais tem muitas histórias para contar. Nessa altura perdeu de vista uma mulher por quem se apaixonou perdidamente e de quem nunca mais soube o que quer que fosse. Anda desde 1975, altura em que regressou a Portugal à sua procura, seguindo-lhe o rasto em arquivos de jornais e organismos públicos que possuam dados sobre os cidadãos. Nunca exerceu uma profissão. A sua conta bancária permitiu-lhe sempre viver com o que pensa ser suficiente para que se viva “bem”. É um homem de poucos caprichos. Todos os meses retira até à quantia que julga ser razoável para um dia-a-dia remediado e reserva sempre uma parte para ir ajudando outras pessoas que veja em real precariedade. Vive num quarto em casa de uma tia idosa, na Avenida de Roma que o deixa servir-se das partes comuns da casa como se fosse seu filho. Limpa o quarto duas vezes por mês. Tem no quarto uma gaiola com dois canários que passa a vida aberta porque lhe faz muita confusão a privação de liberdade. Eles nunca fugiram. Na sua mesa-de-cabeceira a fotografia a sépia da mulher que o apaixona há uma vida. Inês Alexandre Belo. Todos os dias deixa o seu quarto em casa da tia e parte na sua busca por Inês. Todos os dias, apanha pontualmente o mesmo autocarro, deixando que toda a gente lhe passe à frente e sendo sempre o último a entrar. Às vezes corre para o apanhar. Às 9h05 todos os dias. Nunca votou. Nunca se interessou por política mas esteve sempre a par de tudo o que ia acontecendo até ao presente. Era forte a convicção que a guerra não era para si. É do Sporting. O pai sempre o levou aos jogos em pequeno, enquanto a mãe ficava em casa da Tia Gertrudes (com quem vive actualmente) a conversar e a tricotar camisolas que levavam depois a instituições de crianças carenciadas. Gosta de música clássica, principalmente em piano que também sabe tocar de forma exímia embora só o faça muito esporadicamente quando a tia sai. Todos os anos vai à ópera, uma única vez, no São Carlos, ocasião para a qual dispõe de um fato novo muito bonito que, todos os anos, se revela adequado. É esse o seu único luxo. O seu prato favorito é caldeirada de peixe. Não entra num restaurante desde que era muito novo e ia com os seus pais mas lembra-se bem do quanto gostava desse prato. A tia não o sabe fazer e ele também não cozinha. Faz o essencial para não morrer à fome. Come demasiadas vezes bolos e folhados e apesar disso uma saúde de ferro e uns dentes invejáveis. Tem um único amigo, João Faz, a quem confia a sua vida e com quem se encontra num dos bancos do Jardim da Estrela. Ele tem Alzheimer e já pouco fala mas ainda o reconhece. Ficam muitas vezes apenas sentados, lado a lado, num silêncio cúmplice. Acredita em Deus mas não na igreja, rezando todas as noites uma oração inventada por si. Solteiro. Nunca casou. Nunca se envolveu com ninguém à excepção das prostitutas a quem paga volta e meia para ter sexo e conversar sobre as mulheres. A Inês nunca chegou a ser sua. Já se masturbou a pensar nela. (Será que isto devia ir para o psicológico - pensar? Ou para o físico? – mãozinha) Estudou até à altura de ir para a faculdade mas nunca ingressou numa. Não lhe interessava. Não precisava também. É uma pessoa interessada que lê muito e senhor de uma vasta cultura a diferentes níveis. Algumas fontes: rádio que transporta num dos sacos que carrega, bibliotecas onde passa várias horas do seu dia devorando os livros que lhe despertam a curiosidade e os arquivos onde enceta a sua busca por Inês e onde aproveita para conhecer outros factos, tanto do passado, como do presente. Não gosta de ver televisão. Não bebe café. Não fuma. Nunca lhe negaram entrada onde quer que fosse, apesar do seu ar.
PSICOLOGICAMENTE:
Afonso é um homem paranóico. Convenceu-se que um dia uma catástrofe o há-de tentar apanhar desprevenido e privá-lo do que considera essencial para viver bem. Resolveu esse medo irracional, transportando todos os dias dois grandes sacos de pano que encerram tudo o que considera vital para começar de novo em qualquer lugar. Nunca a tia o conseguiu dissuadir de semelhante delírio. Nunca ninguém o conseguiu persuadir acerca do que quer que fosse que não estivesse disposto a aceitar. Obstinado fez sempre aquilo que o seu interior lhe ditou. Jamais permitiu interferências exteriores a si no que toca a decidir o seu rumo. Vive todos os dias com a sombra da catástrofe sobre a sua cabeça. Não sabe o que vai ser, mas acredita piamente estar completamente preparado. A única lacuna no seu plano (im)perfeito é não poder transportar consigo nas sacolas as duas pessoas que lhe são mais queridas, o João Faz e a tia Gertrudes. Quanto aos canários não se preocupa. Como lhes deixa a gaiola aberta e a janela com a abertura suficiente para que passem, se assim o desejarem, sabe que irão ter consigo no fatídico dia, ou pelo menos sabe que têm essa possibilidade de o fazer e por isso, por eles, não se atormenta. Gosta muito de ler, aliás é nesses momentos que se sente preenchido, nesses e nos momentos em que procura a Inês. É um saudosista, vive a vida alimentando-se de recordações, algumas das quais mais fruto da sua imaginação romântica do que fruto de uma experiência vivida. De temperamento calmo, nunca discutiu com quem quer que fosse e não suporta quando as vozes se elevam, nem a intolerância das outras pessoas por isso isola-se muito. Não se lembra da última gargalhada. Não se lembra da última vez que chorou com desespero. Tem vivido assim com uma meia-lua no rosto (um estado intermédio e morno) que o demonstra benigno aos outros, aos que conseguem dar por ele. A sua cor favorita é o laranja porque lhe lembra as flores (gereberas) que ofereceu a Inês a última vez que a viu. É um homem de fé. Para ele nunca é tarde. Tem no saco um bloco onde escreve intermináveis listas de tudo o que ainda lhe falta fazer. Não passa por um sem-abrigo ou por uma pessoa que pressinta em dificuldade sem se lhe dirigir. Nesses momentos fala com a sua voz quente e reconforta as pessoas. É também incapaz de virar costas a um animal em sofrimento (um pássaro caído do ninho, um cão ferido, um gato com fome) auxilia-os na medida das suas possibilidades. É uma pessoa afável e carinhosa mas poucas são as pessoas que o conseguem testemunhar dada a sua pacatez. É um homem de uma inteligência intuitiva, não daquelas inteligências de raciocínio rápido em cálculo e em lógica, é antes uma inteligência para as pessoas e para aquilo que lhes faz mais falta (emocionalmente falando). Desprovido de ganância não dá muito valor ao dinheiro que se encontra na sua conta recheada no banco. Acredita ser possível ser-se feliz só com a contemplação da beleza das coisas que são naturais, como um pôr-do-sol, o mar revolto em dias cinzentos, uma planície completamente seca e árida no Verão, as cores de um pássaro desconhecido ou o pêlo macio de um gato. Acredita que verá novamente Inês. Acredita que o seu amigo se curará um dia da doença funesta. Acredita que ainda tem muito tempo para fazer muita coisa. Sente um terror real quando pensa na “catástrofe” e nessas alturas verifica de forma doentia os conteúdos dos sacos. É metódico, rigoroso e honesto. Nunca enganou quem quer que fosse. Tem medo de trovoadas porque acha que são os anúncios da dita catástrofe. Sente inveja dos que amam. Sente ciúme pela vida que a Inês provavelmente terá. Sente mágoa pelo exílio. Apesar de toda a vida ter vivido errante e sem grandes companhias nunca se sentiu só.
(Ainda queria falar do conteúdo do saco e dizer-vos qual a oração que o Afonso inventou para falar com Deus directamente… Terá de ficar para as cenas do próximo episódio. A página A4 - no máximo - deu lugar a 3 e eu não quero maçar… )

Morto maçado



um sketch de Joana Mil-Homens e João Camolas


Numa Igreja, uma família chora o morto. O Padre chega.
padre
Estamos aqui a velar este nosso irmão que será para sempre lembrado como pai de família exemplar, amigo do seu…
Morto
Alto e pára o baile! Aqui neste caixão ninguém vai ser lembrado como pai amantíssimo… Aqui se há coisa que ninguém vai esquecer é as lágrimas, o suor, qu’eu dei p’lo meu Benfica
padre
Oh homem, que nem morto tens juízo… Olha o que choram as tuas filhas…
Morto
Porcas… Isto é o meu velório e não quero nem vê-las… Lá p’ra trás, bardajonas…
“O pai não pode andar de saltos altos”, “oh mãe ele roubou-me o verniz”.. Porcas! Aqui a chorar… Pa todos verem, não é?… Sonsas…
Volta a deitar-se.
padre
Bom, como dizia, estamos aqui a velar este nosso irmão que será para sempre lembrado como sócio do Benfica exemplar, amigo do seu amigo… é assim?
Morto
Isso sim… Que temos de ser unidos. Joãozinho, Carlos, Joca, venham para aqui. Isso, vocês choram aqui por mim. Pertinho do meu caixão. Joca, vês, era este o cetim que eu dizia, para forrares os estofos do camião (aponta para o caixão). Isso, chora que vais ter saudades minhas.
padre
Estamos hoje, aqui, a velar o Luís…
Morto
Luisão, senhor Padre, quero que me trate por Luisão…
padre
Então que é isso, Luís, respeita a Igreja. Mais coisa menos coisa estás a ser chamado à presença de Deus.
Morto
Oh, senhor Padre, vai desculpar-me, mas este é o MEU velório. Bem bastou aturar a vontade dos outros em vida. Esta festa é minha. Tem de ser como eu quero. Vamos lá, pessoal!
Coro despe as batinas, revelando roupa interior kinky, ouve-se, em fundo, a voz da Glória Gaynor
padre
Então que é isso, Luís, irmãos, respeitem a Igreja. Deus está a ver-vos!!
morto
Ah porca voyeurista!!! Posso em todo o lado, estou em todo o lado, chego a todo o lado. ‘Tou doido para estar de joelhos, junto de Deus!

Primeiro amor, procura-se



um excelente trabalho de Susana Tavares


Nota introdutória: a minha personagem é baseada, quase integralmente, na concorrente vencedora do último “Momento da Verdade”. Numa eventual curta-metragem, não imagino outra actriz a desempenhar o papel que não a São José Correia.


Story Line:

uma mulher de meia-idade que, apesar de já ter dormido com mais de 20 homens, nunca viveu o primeiro amor.

Perfil da personagem:

Virgínia Gonçalves tem quarenta e poucos anos, mas o corte de cabelo moderno e a maquilhagem “tiram-lhe uns aninhos”. Usa sempre maquilhagem. Porque lhe faz bem ao ego e porque a protege do mundo ao dar-lhe uma segunda pele – o ar de mulher-de-bem-com-a-vida que Virgínia gosta de cultivar. Nasceu em Moçambique e talvez venha daí o seu ar exótico. Morena, de feições fortes, duras até, impressiona pela sua presença. É uma mulher fisicamente interessante, sabe disso e usa-o em seu favor. Nunca lhe faltaram pretendentes e Virgínia nunca se negou a affairs. O sexo para si não é tabu. Já se relacionou com homens mais novos, mais velhos, casados, que a amavam, mas que nunca foram correspondidos. Virgínia nunca amou um homem.

Veste-se com roupas “da feira”, das lojas do chineses ou de outras origens igualmente baratas, mas conjuga todas as peças e acessórios com bom-gosto, ou não fosse ela uma mulher prática e desenrascada. O que faz com a roupa, sempre fez com tudo na vida: tenta encontrar em cada coisa o seu lado bonito. O pensamento positivo com que encara a vida tem-lhe permitido esquecer o passado e viver cada dia do presente com uma motivação renovada. O seu lema de vida é: “Para a frente que atrás vem gente”.
Mudou de emprego várias vezes ao longo da sua vida. Como não é mulher de trabalhar só para ganhar dinheiro, nunca parou muito tempo nas lojas e supermercados que lhe davam trabalho. A sua formação não lhe permitia arranjar coisa melhor. Virgínia abandonou a escola muito cedo, instigada pela mãe a trabalhar para se auto-sustentar e, como tal, não acabou o quinto ano. Mas naquela a que chama a “escola da vida” é doutorada. Encontrou o emprego ideal há poucos anos, como tratadora de cães. Adora o que faz, mesmo sendo mal paga. Adora animais. Na verdade, entende-se melhor com os animais do que com as pessoas.
Virgínia tem uma filha com cerca de vinte anos, Mara, fruto de uma relação passageira com um homem mais velho. Virgínia nunca amou o pai da sua filha e sempre fez questão de lho dizer. Nunca moraram juntos, nunca formaram família. Sempre foi Virgínia e Mara, apenas. Sempre foi morna a relação de Virgínia com a filha, algumas vezes fria. Virgínia não consegue ser de outra maneira. Ama incondicionalmente a sua filha e daria a vida por ela, mas nunca foi capaz de lhe dar um abraço. Não consegue dar aquilo que nunca recebeu.
Não se sente boa mãe. Há nela um egoísmo que a impede de dar incondicionalmente tudo de si à filha. Sempre achou que Mara tinha nascido sem que estivesse preparada para ser mãe e, por isso mesmo, nunca abdicou das suas vontades pela filha. Sempre que lhe apetecia “desanuviar”, deixava a filha ao cuidado do pai. As ausências de Virgínia chegavam a durar meses. Mas quando voltava para junto da filha, era uma mãe presente, a melhor que conseguia ser. As variações de personalidade de Virgínia sempre a caracterizaram. Vive num limbo entre a vontade de viver desenfreadamente e sem amarras e a necessidade visceral de uma âncora que a prenda. Mara é a âncora de Virgínia, como outrora a sua mãe já o fora.
Virgínia apelida a mãe de “bruxa”. Está de relações cortadas com a empregada de limpeza que a criou sozinha e maltratou durante anos a fio. Não se falam há anos. Com o seu pai, Virgínia não se lembra sequer de alguma vez ter falado. O técnico de aviação abandonou mãe e filha, tinha Virgínia dois anos. Cedo demais para ela recordar a cara do pai ou ter algum tipo de referência dele. Sabe que é muito parecida com o pai porque a sua mãe sempre fez questão de lho dizer. A mãe nunca lhe escondeu o quanto era doloroso encarar o rosto de uma filha que, a cada feição, lhe lembrava o homem que ela lutava por esquecer. A genética transformou Virgínia num saco de boxe de uma mulher amargurada pela vida.
A infância e adolescência foram vividas entre castigos infligidos dentro de casa e delitos cometidos fora de casa. Conheceu duas ou três casas de correcção de onde sempre fugia. E voltava, após uma e outra fuga, sempre para casa da mãe, onde mais um castigo a esperava. Virgínia não tinha mais ninguém além daquela mãe castigadora, não sabia para onde fugir. Ou talvez já não soubesse viver fora dali, talvez os castigos a tivessem viciado. Com o passar do tempo, habituou-se a ser repreendida, renegada e enxovalhada. O primeiro homem com quem se relaciona é um “bom partido” arranjado pela sua mãe. Aos vinte anos, Virgínia casa-se com um homem que mal conhece e que muito menos ama. Meses depois, foge. Mais uma fuga na vida desta mulher, mas desta vez não para casa da mãe. Foge para Portugal, com dinheiro roubado ao marido de fachada, o suficiente para a viagem e para umas semanas de sustento. Em África deixou um passado tortuoso e um quadro familiar que explica muito do que Virgínia é enquanto mãe e mulher.