segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

isto não interessa nada

Escrever sobre nada. O oposto da minha vida. Sempre tão espartilhada pelos temas, pela actualidade, pelo espaço, pelas fotos, pelas fórmulas. Aqui só sobrevive a pressão. A pressão dos prazos, a rapidez no dedilhar, a música para a inspiração. Que silêncio. Que estranho. Será que interessa a alguém a minha escrita, só por si, sem opiniões alheias, sem contraditórios. Sinto-me de novo a descobrir o fascínio da folha em branco. Ali. Disponível. Inteirinha só para mim. Isto quase parece um diário ou aquelas diarreias mentais que tinha em adolescente. Já não tenho idade para isto.
Gosto da música. Gosto de música. De clássica. Para escrever é o ideal. Costumo ouvir Chopin, os nocturnos tocados por Maria João Pires. Mas também gosto de me evadir do bruá alheio com sons do mar. E lembro-me sempre de uma vez que estava num avião a regressar do Brasil (por cima do oceano) e aquilo não parava de tremer, e eu - que também não parava de tremer - pus os auscultadores no programa de relaxamento. Acto contínuo, oiço: «Imagine-se no fundo do mar…» Tão adequado, pensei. E não me acalmei, como é óbvio.
Mas quando a música tem demasiado ritmo, ou letra intensa, deixo de ter concentração suficiente para me evadir – e lá se vai, em sonhos, a sala escura das massagens. É superior a mim. Começo imediatamente a trautear a letra (se não a souber de cor, invento), o corpinho, a medo, vai bamboleando-se, o pé a bater ao ritmo. Que se lixe o texto. Gosto mesmo de dançar. De música, de letras em inglês. Foi a achar que cantava essas letras que aprendi a língua, ou a ver desenhos animados com legendas ou filmes. Do Hitchcok, no quarteto. Eu e a minha mãe. Vimo-los todos. Que bons que eram. Que são. Tenho pena de já não ter essa disponibilidade para o cinema e com isso as saudades do tempo em que não era super mãe. Tento furar o esquema sempre que posso. Aproveitar horas de almoço, encher-me de go natural nas cadeiras do cinema do Oeiras Parque. Sozinha. Sozinha, mesmo, só eu e o senhor «Cine Paradiso». Sabe a pouco, até porque os filmes que por lá passam deixam muito a desejar. A propósito: tive uma surpresa no último que vi. Ao ler o genérico descobri que um dos meus formadores (que raio de nome, mas também assim de repente não arranjo outro) fazia parte do elenco. Se sentir saudades disto, posso sempre (re)vê-lo no grande ecrã.

Luísa Oliveira

O carro falante

GoCar recusa-se a falar com a Mónica porque está em greve.
MÓNICA
Não dizes nada?
GOCAR
Agora não me apetece.
MÓNICA
Mas eu paguei para te ouvir falar de Lisboa.
GOCAR
Não sou nenhum papagaio, sou um carro amarelo.
MÓNICA
Um carro falante, é suposto falares enquanto andas.
GOCAR
Hoje não. Estou em greve.
MÓNICA
O que é que se passa?
GOCAR
Sinto-me muito cansado. Os turistas, ou melhor, as turistas não me largam.
MÓNICA
Tens dado muitas voltas?
GOCAR
Imensas. E o pior é que trabalho todos os dias.
MÓNICA
A sério?
GOCAR
Sim, Sábados e Domingos incluídos.
MÓNICA
Talvez seja melhor falares com o teu chefe. Em vez da greve, pede-lhe um aumento.
GOCAR
Aumento? O tipo é um sovina do caraças. Só pensa em facturar.
MÓNICA
E o negócio corre-lhe bem.
GOCAR
Pois claro, à minha custa. Resmas de gajas a querem circular comigo.
MÓNICA
E tu, não gostas? Não me digas que…
GOCAR
Não, nada disso. Mas às vezes, não chego para as encomendas.
MÓNICA
Agora que já nos conhecemos melhor, aceitas dar uma volta comigo?
GOCAR
Está bem miúda. Põe o cinto. Puseste o capacete preto? Deixa ver. Fica-te bem.
MÓNICA
Deves dizer isso a todas.
GOCAR
Não a sério, a ti fica-te muito bem.
MÓNICA (sorri)
Onde é que vamos?
GOCAR
Queres ir a Belém?
MÓNICA
Podemos parar nos pastéis de nata?
GOCAR
Claro, paramos onde tu quiseres. Como sou pequenino, sou fácil de estacionar.
MÓNICA
O tamanho conta, a teu favor.
GOCAR
A nosso favor miúda. Estás a gostar do passeio?
MÓNICA
Estou, mas as pessoas não param de olhar, já viste aqueles a acenar.
GOCAR
Buzina miúda. Carrega na minha buzina.
MÓNICA (Carrega na buzina e acena)
Não sabia que era tão conhecida.
GOCAR
Não é para ti, é para mim miúda.
Tás a ver aquelas japonesas, já se sentaram aqui no colo do paizinho.
MÓNICA
As mulheres não resistem a quem lhes faça rir.
GOCAR
Eu sei miúda. É cada história.
MÓNICA
Conta-me uma divertida.
GOCAR
Já sabes aquela dos “mais loucos corredores de escrita criativa”?
MÓNICA
Não, conta lá.
GOCAR
Os tipos resolveram fazer uma corrida mesmo em frente aos Jerónimos.
MÓNICA
Tás a brincar.
GOCAR
Juro pela minha mãezinha. Só pararam de acelerar porque apareceu a bófia.
MÓNICA
Conta mais.
GOCAR
Conheces aquela do tipo da boina às riscas?
MÓNICA
Não. Conta lá.
GOCAR
O tipo foi perseguido pela polícia porque foi confundido com os irmãos metralha.
MÓNICA (RI)
És o máximo.
GOCAR
Tu também miúda.

inspiração à pressa


A ópera continuava, sonante. Em cena, Turandot ordenava aos seus criados para correrem toda a cidade à procura de alguém que soubesse o nome do príncipe desconhecido. Aquele misto de sentimentos, a raiva misturada com a surpresa, o desespero misturado com o prazer afloravam em Turandot. Só equacionava salvar-se, encontrar a chave que manteria a tranquilidade da ausência da mudança. Quem seria aquele príncipe que ousou desafiar as suas leis? Nessa noite, ninguém dormiria. Intrigada, Matilde pensava: Onde raio se meteram eles?
Ao mesmo tempo, Carlos e Mariana corriam nos becos da rua do Porto. Tinham decidido abandonar a festa e os amigos, sem que ninguém desse por isso. A fuga garantia a felicidade que lhes estava prometida e não podia ser adiada. O cachecol servia de corda rebocadora para que Mariana aguentasse o fôlego da corrida.

Num 3º andar, batia à porta Carolina. Deixou para trás tudo o que caracterizava a vida dela naquele momento. Tinha tomado uma decisão: recomeçar. Como todos os recomeços, fazia-o a chorar porque há que reequilibrar os fluidos para que tudo faça sentido outra vez. Levava o saco de viagem na mão, com tudo aquilo que era prioridade na vida dela. O resto, que ficasse para trás. Traria memórias que não lhe interessavam. Desceu as escadas a correr e, no momento em que trespassou a porta, cortou a meta: o cachecol de Carlos e Mariana jazia no chão.

Antónia Marinho

o mordomo - uma história em três melodias


Mozart

Desespero. Sensação de urgência, de aperto no peito. Naquela manhã, o patrão tinha sido encontrado morto na biblioteca escura da mansão, entre as intermináveis estantes de livros empoeirados. Gritos cavernosos anunciaram a sua morte. Fora encontrado pela empregada, no chão de mármore, gélido e ensanguentado. Fora agredido com o pisa-papéis que sobre ele repousava, manchado de um vermelho-sangue. Naquela manhã fria de Novembro, a mansão ecoava gritos de pesar e de horror. O inspector prepara-se para anunciar aos enlutados o assassino do patrão. “Será que foi o mordomo?” – balbuciou a viúva, entre lágrimas. “É sempre o mordomo” – concluiu a empregada, leitora ávida de romances policiais, fã de Agatha Christie e de Pedro Vozone.
O jovem mordomo inglês assistia ao discurso do inspector, prostrado numa poltrona, no fundo da sala. Quase paralisado. A culpa estampada no seu rosto não significava que tivesse sido ele o autor do crime. Desta vez, para espanto da empregada e dos fãs de romances policiais, o assassino não era o mordomo. A culpa do mordomo existia, somente, por ter estado na biblioteca, na noite do crime, com o filho do patrão, seu amante.

“You only live once”
O filho do patrão não partilhava o sentimento de culpa do mordomo. Depois de, brutalmente, ter assassinado o pai, partiu no Bentley do velhote, estacionado à entrada. E viajou sem destino, livre. Não fugia do que tinha feito naquela noite. Pelo contrário. Iria entregar-se, mas só quando lhe apetecesse. Primeiro, precisava experimentar aquela sensação de liberdade durante um bocadinho. Acompanhava com euforia uma música que tocava na rádio. Cantava, sem receios. Aquela música fazia-o sentir vivo, livre, sem amarras. Aquelas horas em que viajou com o volume do rádio no máximo foram para aquele rapaz as melhores da sua vida.

“The first of the gang to die”

“You have never been in love”, concluiu, pesaroso, o mordomo, na sua língua materna. E o rapaz, mantendo o ar impassível com que regressara do passeio, não desmentiu. Seguiu calado, algemado e escoltado pela polícia ao carro do inspector. Seguiu viagem até ao cárcere. E durante essa viagem, bem diferente da que fizera na noite anterior, transportava consigo apenas um único pensamento, uma imagem onírica que contemplara na noite anterior: o reflexo das estrelas na água. Efémero e avassalador, como o amor que outrora sentira pelo mordomo.

Susana Tavares

três músicas

Música 1

Desce um padre do altar, aproxima-se da sua major imagem de redenção, ajoelha-se e pede perdão a Deus.
“Perdoa-me ter sido a pessoa que fui, perdoa-me todo o sofrimento que te causei, perdoa-me não ter seguido a tua doutrina”
Monsenhor Noé atravessa o hall da igreja e dirige-se à mais alta torre do Duomo de Milão. Sobe os 148 degraus da mesma, passando por aberturas sem vidro, a chuva torrencial aliada ao frio cortante servem de princípio de tortura. O castigo máximo aproxima-se. O sentimento de não redenção impera na sua alma. Chegando ao cimo da torre, começa a palmilhar a cobertura de mármore, lívido com a luz dos trovões que não deixam de cair. O barulho ensurdecedor atropela a sua reza contínua: “perdoa-me ter sido a pessoa que fui, perdoa-me todo o sofrimento que te causei, perdoa-me não ter seguido a tua doutrina”.
Noé aproxima-se da gárgula, olha sobre Milão, deixa cair uma lágrima e por fim apela a Deus:
“Perdoa-me ter seguido o demo…”
Música 2
Vamos sair? Vamos curtir? Hoje está-me mesmo a apetecer electro. Lux?! Green?!
Não posso, meu… a Mariana não me deixa sair assim todos os dias!
Não sejas assim, nunca sais com os amigos. Hoje é dia de diversão, apetece-me beber umas imperiais, umas amêndoas, apetece-me explodir de sensações! Já te contei que comprei uma ESP?
Não?!
Tou a falar sério, tem um som brutal! Não tenho parado de rasgar com aquilo. Faz-me lembrar do verão, da diversão… Hoje é o fim do mundo!
Música 3
O sentimento da responsabilidade findada. Fantástico. Acabou-se o curso, acabaram-se as preocupações, relax relax relax! É hora de uma surfada. Baleal ao fim da tarde, o pôr-do-sol como painel e o mar a puxar por mim; como seria fantástico ter prancha.
Vestir o fato, sentir a água fria aquecer o corpo, por mais estranho que pareça; como seria fantástico poder andar.
Ricardo Albuquerque

wordsong

Simplesmente vago, uma confusão indistinta e incessante, um desvio que trespassa estas paredes, este terraço, vocês, que escrevem, escrevem e escrevem. Parecem saber para onde vão. Vago, pensamentos perdidos, inconsistentes, provavelmente esquizofrénicos. Paro, olho novamente, vocês continuam a escrever e eu sinto-me tentada a parar neste tempo, neste silêncio cinzento. Por mim ficava assim, entorpecida, mais depois penso, é melhor subverter este vago, dar-lhe estilo, estabelecer os seus limites.

(Times New Roman, 12, justificado, 488 caracteres)

E larica. A música também me abriu o apetite. Acho que Mozart vai bem com Picanha.
Vanessa Luz

e, após o intervalo para comerciais


Pressão, pressão, pressão. A música arrancou e eu tenho de “arrancar” também
qualquer coisa... tenho de arrancar, nem que seja a ferros. Ok, concentração,
brainstorming mental e individual.....e aqui vou eu! Que porra, eu nem gosto
de ópera: fiquei assim desde que o meu avô me obrigou, com a tenra idade 3
anos, a decorar a várias sinfonias de Beethoven. São sempre números, não é?
Espera, espera: Strokes! Não acham o Julian Casablancas o gajo mais giro do
mundo? A música diz que só se vive uma vez e eu acho que uma vez é mais que
suficiente (é impressão minha ou acabei de fazer um aforismo?).
Epá, o bacano da boina tem um CD de Morrissey na mão... esta é a altura em
que eu digo que este é o meu cantor preferido de todos os tempos e que até
tenho algumas tatuagens alusivas à personagem espalhadas pelo corpo.
Aproveito também para dizer que há coisa de 4 anos cortei a sola do pé ao som
desta música. Estava numa discoteca pseudo-gótica, muitissímo mal
frequentada, quando, de excitação, ao ouvir os acordes inicais da dita cuja,
esmago um copo de imperial com as minhas cândidas sabrinas que ficaram, de
imediato, com uma notável tonalidade avermelhada. Foi uma bela noite
passada nos corredores do hospital de São José.

Porra, a música acabou e eu não escrevi nada de jeito... (mais um texto que
não vai para o “bolinhos”
)

Catarina Carrola