domingo, 16 de novembro de 2008

Sketch da dupla Joana Mil-Homens / João Camolas



Anúncio de TV filmado a preto e branco. "Boys 2 men" soa em fundo como que amparando a acção, ilustrada nas palavras.


VOZ OFF
O Natal é época de amor, tempo de esperança. Tempo de estender a mão a quem mais precisa.
Todos os anos, dezenas de crianças passam esta época sem árvore, sem presentes, sem amor e sem carinho.
Todos os anos, dezenas de crianças esperam que o Natal lhes traga não presentes, mas amor.

Este Natal pense nelas para que elas possam pensar em si.

Venha à União Pedófila e ajude um menino a ser mais feliz.

União Pedófila. Este Natal tenha uma!

O Pai do Luís



O Pedro Vozone produziu, de modo involuntário, um belo mini-conto (ou grande post) a partir do desafio "Criação do Perfil de uma Personagem". O que importa é que vale - muito - a pena.


O Pai do Luís fabricava comboios na Sorefame. Via-os partir, reluzentes, da linha de montagem, e via-os voltar, desconjuntados, ferrujentos, estofos rasgados, cortados, naifados por gente da mesma linha, de Sintra, mas que não tinha conseguido arranjar um emprego na Sorefame. Os anos passavam entre a saída das carruagens imaculadas e seu regresso pútrido, infecto. Os anos passaram, pútridos, infectos. No meio da podridão, da doença e do que lhe deram.

Luís era um rapaz inteligente. Tinha jeito para a matemática. Estudou informática e os programas dele eram bons, davam jeito aos que queriam programar como ele mas não conseguiam programar como ele mas conseguiam mandar mais do que ele porque não nasceram filhos do homem que via partir e chegar os comboios.
O Luís quer ser alguém. Aos trinta anos já a calvície avança, cobrando as horas de sono perdido, as directas consecutivas a soldo dos que invejam ser como ele e sabem que ele vê a vida pelo prisma curto que lhe deram em miúdo. Vão para casa...e o Luís fica. Vão para as casas vastas e amplas e o Luís não dorme e programa, sem programa para cada noite em que deixa a mulher só em casa, barriga que cresce mês após mês, noite após noite, sem o Luís; o Luís tem programa.
O Luís vai ao ginásio à tarde, nos dias em que, depois de três directas, pensa que ganhou o direito de chegar tarde. O Luís vai ao ginásio já não se lembra desde quando, para poder combater com o seu tamanho musculado o seu interior cândido de quem acredita que envia os comboios para servir o mundo, e que esse mundo os vai tratar e respeitar, solidário com quem os construiu. O Luís ficava surpreso de cada vez que via que os comboios voltavam vandalizados. O Luís não percebia, apesar da sua enorme inteligência, flitrada por um funil de miséria, de domínio, de opressão.
O Luís lê. O Luís tenta aprender mais, fora do filtro que lhe deram quando nasceu. O Luis revolta-se, no tamanho imenso das suas patilhas. O Luís lê estratégia e revistas de economia. E atira à cara dos que já tudo leram que nada sabem do que sabem.
O Luís tem um ar afável, ajudado pelos olhos verdes, que os que queriam ter olhos verdes nos seus sonhos que tudo lhes davam, não têm. Mas mandam nele, como mandavam nos soldados de plástico da sua infância. Fingem colaborar no seu esforço com um tardio “até amanhã” que o deixa a trabalhar até de manhã. O Luís programa. O Luís corre pelos corredores a partir da segunda directa. Precisa de informação para continuar a programar, e vai buscá-la, a correr. Aqueles que o fazem correr comentam: “Os programadores? Isso são uns tipos que estão numa sala escura, dia e noite à frente dos monitores; de vez em quando vais lá, abres a porta e... atiras um bocado de carne.” E riem, riem, riem que riem dos que têm perna curta e tronco forte, ar bonacheirão e um dilema interior do tamanho do mundo: querem mandar mas todos os seus exemplos foram sempre mandados, não sabem como fazê-lo. Quem ajuda o Luís, as suas T-shirts com textos americanos subversivos que só ele, português da Amadora, percebe?

Oásis



a Vanessa Luz também, embora cumprindo mais rigorosamente os requisitos técnicos de um perfil de personagem. Por outras palavras, é a versão literária de um perfil.


É assim que alguns o chamam, e ele tolera em relação ao seu nome, Joaquim Bonito. Injusta dominância paterna, herança mal-parecida. Desde tenra idade que sente o apelido envergonhar a sua fraca figura, o ar pasmado e misantropo desprovido de cor. Uma inércia expressiva que cedo viu reflectida no espelho e agora vê deteriorada pelos seus 46 anos. Olha frequentemente para os seus pés, renega o aspecto cada vez mais rústico e encarquilhado que contrasta com a tez ainda mais fraca, uma visão descabida do que ele ainda acredita ser. Estranhamente, apesar de não apreciar o seu corpo, sente-o como merecidamente seu. A musculatura lânguida e o porte taciturno conferem-lhe o conjunto tímido, porém de proporções inesperadamente fortes, uma distribuição óssea equilibrada. E também pelo cabelo, uma melena jovialmente luzidia que irrompe o rosto macilento. Finalmente as mãos, que são finas e delicadas, um agrado que tem saboreado intimamente e aconchega a camuflada picuinhice sentimental, apesar de lhe causar constantes dissabores numa profissão que requer mãos másculas. Oásis para Américo, Nando e mais dois ou três. Sargento Joaquim Bonito, no trabalho, um competente e respeitado GNR destacado à beira-mar, no posto de Sesimbra. Tem abraçado a profissão com invejável idoneidade, um merecimento que o entretém e lhe apazigua a inquietude que inexplicavelmente cresce com a idade, com a imensa solidão. Porém, a melhor profissão para camuflar esta fragilidade.
Leva uma vida insonsa com os filhos, numa vivenda construída a custo, um bocado de terra murado com suor pestilento do sogro, martelado pela sua angústia e adornado pelo sonho da falecida Isabel, uma cerca amarela e uma Palmeira no jardim, chamaram-lhe ‘Vivenda Oásis’. Quando ela morreu ele ainda pensou em acabar com aquilo, mudar-se para um soalho simples. Mas, por respeito à mãe dos seus filhos aceitou o destino e todos os anos compra uns metros de cercado e as latas de tinta amarela.
Ultimamente tem-se dedicado a esta tarefa com inusitado prazer, maneja os pincéis com um sarcasmo crescente. Um vício que prospera tanto quanto atormenta.
O apelo surrealista, insensível à memória de Isabel e a todo o seu empenho, corteja-o para o improvável devaneio. Pensa ele, enquanto dá a primeira-de-mão.

Ata-me (mas não me aleijes)




resultado do exercício de sketchs - pela dupla Andreia Moreira / Susana Tavares


O sketch começa com imagens clipadas, sonorizadas com música dramática. Nas imagens: vários funcionários da EMEL vagueiam pela cidade, com um ar tresloucado e um olhar vazio. Entraram em colapso, pois já ninguém estaciona mal os seus carros. As pesadas multas e os constantes bloqueamentos dos carros educaram os condutores. Agora, os funcionários encetam tentativas de bloquear pessoas que vejam paradas por mais de 4 minutos em cima dos passeios. No fim das imagens, o título do sketch: “Ata-me, mas não me aleijes!”.

O funcionário da EMEL fala para o seu walkie-talkie.

funcionário da emel
Foi detectada sujeita em situação de estacionamento incorrecto na via pública. Trata-se nomeadamente de um passeio recém restaurado por calceteiros qualificados.

Devagar e de forma cautelosa, esquivando-se a ser visto antes de tempo, dirige-se a uma dona-de-casa de meia-idade que se encontra parada, cheia de sacos de plástico na mão a olhar para o relógio. É a típica dona de casa. Mal cuidada, descrente da vida e sem qualquer pinga de amor-próprio. Ao chegar ao pé dela, o funcionário levanta-lhe os braços até formarem ângulo recto com o corpo.


funcionário da emel
Vou proceder ao seu bloqueamento. Sossegada se faz o favor.

dona-de-casa
Vais o quê filho? Fala um ‘cadito mais alto que não te escuto.

funcionário da emel
(Impávido) Vou ler-lhe as condições de bloqueamento: São 17h30 do dia 8 de Novembro de 2008, a senhora encontra-se aqui especada há mais de 4 minutos e 59 segundos e como tal será bloqueada.

dona-de-casa
O quê? (Aponta para um sinal de cargas e descargas) Mas ali diz que se pode parar aqui para cargas e descargas… (Mostra os sacos) E eu estou carregadinha!

funcionário da emel
Pois, mas ali também diz “excepto pesados” e a madame ‘tá na categoria dos pesados de mercadorias.

dona-de-casa
Prontos, também não é preciso ofenderes. Deixa-me lá ir à minha vidinha e fazemos de contas que não se passou nada.

funcionário da emel
A senhora daqui só sai depois de alguém pagar a multa.


dona-de-casa
Depois de alguém pagar?! Oh filho, quem é que julgas que eu sou?! Olh’ó respeito!

funcionário da emel
Eu estou a referir-me à multa! Alguém vai ter de a pagar!

A dona-de-casa saca de um lencinho e começa a choramingar para se livrar da multa.

dona-de-casa
Lá se vai a minha reforma…

funcionário da emel
Veja, faço apenas o meu trabalho. Há que manter as nossas ruas limpas.

A dona-de-casa passa do lamento para a agressividade.

dona-de-casa
Ah ele é isso? ‘Pera aí que eu já te digo.(Grita) Acudam! Acudam! Este homem quer violar-me com métodos sadomaso! (aos gritos, descontrolada)

funcionário da emel
Sadomaso? Nem sei o que é isso. Minha senhora, só quero esta rua limpa.

dona-de-casa (possuída pelo demónio)
Estás a chamar-me porca? Tu estás a chamar-me porca?

A dona de casa começa a bater-lhe com a mala e com os sacos.

funcionário da emel
Se a senhora não se acalma meto-lhe o aviso de reboque na boca.

dona-de-casa
Na boca? Na boca não me pões nada oh meu grande badalhoco.

Passa um miúdo na altura que a dona-de-casa conhece.

dona-de-casa
Oh Trincas filho vai chamar o meu Emídio, que eu estou aqui com uma arreliação de todo o tamanho.

Trincas
O que é que me dá?

dona-de-casa
Não digo ao teu pai o que te vi fazer atrás da escola com o Palas e já estás cheio de sorte.

Trincas
Estou a ir! Estou a ir!

Elipse. Aparece o Emídio apressado.

emídio
O que é que se passa Belinha?

dona-de-casa
Este homem horroroso atou-me toda e agora quer pôr-me as sapatas amarelas. E tu sabes, tu sabes como eu sofro dos joanetes.

emídio
Confuso) O Trincas falou-me em sadomaso qualquer coisa e que a história do Palas é mentira…

funcionário da emel
Bom, se não se importam vou colocar os bloqueadores propriamente ditos.

emídio
Não pode dar um jeitinho? Os seus colegas têm dado uma tolerância de pelo menos 10 minutos…

funcionário da emel
A lei é para se cumprir. Mas já vi que vai ser difícil colar-lhe o aviso na boca. Leve-a... mas nada de se gabar ouviu? Senão para a próxima bloqueio os dois.

emídio
(Apertando-lhe vigorosamente a mão) Muito obrigado! Um grande bem-haja.

Vira-se para a mulher e pega-lhe nos sacos.

emídio
Anda belinha. Vamos para casa.

A dona-de-casa puxa a manga ao marido e diz-lhe baixinho:

dona-de-casa
Emídio?

emídio
Sim Belinha…

dona-de-casa
Afinal já não quero a fritadeira, nem o espremedor de citrinos, nem a faca eléctrica “ouvistes”?

emídio
(Incrédulo) Era o que andavas a pedir há meses… Que se passa?

A dona-de-casa fala agora de forma meiga e dengosa.

dona-de-casa
Mudei de ideias… Vai lá pedir ao senhor se te arranja um ‘cadito daquela fita.

emídio
P’ra quê Belinha?

A imagem desfoca e quando volta a focar vê-se a dona-de-casa, já no repouso do lar, enfiada numa lingerie pavorosa.

dona-de-casa
Ata-me Midinho! Mas não m’aleijes

sábado, 15 de novembro de 2008

Viagem




Hoje viajei para dentro de mim e encontrei-te. Estás na mesma. O mesmo sorriso maroto, a mesma tristeza no olhar distraído numa ausência presente. Apeteceu-me beijar-te mas quando abri os olhos já tinhas partido.
Talvez te veja amanhã, na mesma esquina do meu coração. Com sorte, ainda te revejo mais algumas vezes, até desapareceres completamente da minha memória. Como uma folha levada pelo vento. Com leveza e sem rumo. Mas eu quero-te recordar, quero poder visitar-te sempre que me apetecer. E quero que estejas à minha espera. Com o mesmo sorriso maroto, a mesma tristeza no olhar distraído numa ausência presente. Não quero que partas. Fica. Fica para sempre. Por mais viagens que faça para dentro de mim, é a ti que te procuro ainda e sempre que te vejo é como se fosse pela primeira vez. E ao recordar revivo a nossa primeira viagem. Juntos éramos um só. Demasiado apaixonados para percebermos que era o início do fim. Às vezes preferia não te ter conhecido. Não ter conhecido o amor. Porque dói tanto ter-te só no pensamento. Estás impregnado na minha alma, como uma mancha que não sai. Resistes a tudo. É por isso que já desisti de te apagar. É por isso que te carrego sempre comigo na bagagem da vida. E é por isso que vivo da saudade de ti. Não quero que partas. Fica. Fica para sempre. Ao menos deixa-me ver-te sempre que me apetecer. Espera por mim na mesma esquina do meu coração. Por mais viagens que faça, é a ti que procuro ainda. Sempre tu. Só tu. Vivo da saudade de ti. Vivo da lembrança que tenho de ti. Não partas da minha memória. Se partires, reinvento-te outra vez, e outra vez. Já não vivo sem ti. Sem a lembrança de ti. Sem te recordar. Só a saudade de ti me alimenta. Como o pão nas mãos de um pedinte. Tenho tanta fome de ti. Tenho sede de ti. Dá-me o teu mar a beber. Não partas. Fica. Fica para sempre. O amor não envelhece. Estás na mesma, já te tinha dito? Amanhã quero ver-te na mesma esquina do meu coração à minha espera. Com uma rosa vermelha na mão, como da primeira vez. Vamos conversar, tenho tanto para dizer. Quero dizer-te tudo o que não te disse. Quero ir a todos os teus lugares que ficaram por visitar. Quero que descubras em mim os lugares que não chegaste a demorar-te. Fica. Fica para sempre. Não te quero apagar da memória. Resiste. Resiste a tudo. Como uma nódoa que teima em permanecer. Não te quero lavar da alma. Vivo da saudade de ti. Vivo de recordações. O que me mantém vivo é ter-te no pensamento. Sempre tu. Só tu.
És uma obsessão. É por isso que desisti de te apagar da memória. É por isso que te carrego sempre na bagagem da vida. Por mais que viaje para dentro de mim, é só a ti que te procuro. E é só a ti que quero encontrar. Intacto. Mesmo que não te consiga alcançar, ver-te apenas basta. Basta para me sossegar a alma. A alma que tem fome de ti, que tem sede de ti. Dá-me o teu mar a beber. Quero-te tanto. Não me canso de ti. Não me canso de te amar. O amor não envelhece. Fica. Fica para sempre dentro de mim. A cada viagem quero te ter à minha espera na mesma esquina do meu coração. Vivo apenas porque te sei vivo dentro de mim, como da primeira vez. Resiste. Resiste a tudo. Como a mãe agarrada a um filho que já partiu. Não partas. Não me deixes. Não desistas de mim. Habita o meu corpo, o meu pensamento e invade a minha alma. Deixo-te a porta aberta. Entra. Entra e fica. Fica. Fica para sempre dentro de mim. Amo-te. Amo-te como da primeira vez. Beija-me. Beija-me como se fosse a primeira e a última vez ao mesmo tempo. Como uma rajada de vento. Como um raio fulminante. Como uma tempestade de luz. De afecto. De emoção. De sentimento. Como da primeira vez. Entra e fecha a porta. Fica. Fica para sempre a habitar em mim. Porque te amo. É a ti que procuro ainda, de cada vez que viajo para dentro de mim. És a minha verdade. És a minha única verdade. Porque te amo. Só a ti. Mais do que a mim própria. Fica. Fica para sempre dentro de mim. Não partas.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Mudámos de morada

Depois de meses de intensa negociação, o Sapo acaba de apresentar uma proposta milionária (da qual apenas ouvirão falar e nunca verão nada) para nos associarmos ao directório. Como fui Pai há pouco tempo, tive de pensar no futuro e por isso aceitei.

A partir de hoje, o nome mantém-se, mas muda de morada. Já estão todos convidados, por isso, é aparecer e opinar. 

Mais a sério, a mudança deve-se a um pedido das próprias PF ao qual eu gentilmente acedi - as coisas que eu faço para satisfazer completamente.

Dedicada a NCSantos