segunda-feira, 2 de março de 2009
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Isto não é fácil
O dia em que tudo começara fora o dia em que no prato do gira-discos rodava o vinil com Clair de Lune de Debussy. Melodia com que chegou Oddville às suas vidas. Um homem que mais ninguém conheceu. A partitura que António mais gostava de interpretar, quando tocava de forma magistral o seu piano. A música maldita que de quando em vez, o obriga a regressar à cruel realidade, aquela para a qual já não é possível resgatar Isabel. O seu único e verdadeiro amor, igualmente responsável porém, pela sua desgraça. Pela sua morte. Pela morte e desgraça de ambos.
Olha para o líquido onde diluiu a dosagem fatal com que planeou a morte dos dois. Contempla desolado a bela mulher que tem a seu lado alheia ao plano, ingénua na sua ausência irremediável. Agita a garrafa acima da cabeça diante dos olhos e pensa:
É chegado o fim?
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
......
Só se ouviam os seus passos, pancadas secas e cúmplices rasgavam o silêncio da noite. Percorriam jardins da residência francesa, lá dentro Oddville jazia o último sorvo de prazer.
Caminhavam sem se tocar, quer dizer, tocavam-se um pouco. Os seus casacos roçavam mangas, os seus passos ensaiavam o mesmo ritmo. Não era só impressão, eles iam falando assim. Boris sabia que ela tinha cometido mais uma loucura. Ainda bem pensava ele, Oddville era alvo a abater, ninguém melhor que Anna para produzir finais grandiosos. Restava a encenação do derradeiro final, aquele para onde parecia caminhar com ela, ambos lúcidos e aparentemente cientes daquilo que queriam.
Convergiam, por entre sombras mudas para a parte do jardim mais denso. Anna ensaiava as palavras finais, o envelope já não era importante, pensava ela. Não passava de um pretexto menor, o maior, era afinal, Boris. Roçavam mangas. Ela sentia o torpor mole que vinha dele, com isso a angústia ténue e um bocado de amor. Nunca fora capaz de matá-lo. Porquê? Logo ela, de ágil mestria assassina. Talvez ainda se amassem, talvez se tocassem mais que aquelas mangas de casaco, talvez se tocassem constantemente, insinuavam a morte um do outro como se a dança da dor fosse a do amor. A morte trágica era implícita, mas sabida, a música deles. O ideal louco, segredado, composto, executado naquela Partitura que também jazia, há anos dentro de um envelope. A brisa húmida das folhas comovia-a, inebriava-lhe os pensamentos loucos, desconexos, estupidamente crentes.
Boris comandava a passada. Alheio àquela opereta ridícula que viajava no cérebro ao lado.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Resposta a "instantâneos criativos"
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
(Um convite entre parêntesis)
Estava para aqui a pensar: e se então num destes sábados ou domingos próximos organizassemos uma passeata criativa por Alfama ou pelo Castelo, de maquina digital na mão, a registar espaços ou atmosferas, que depois de seleccionadas pelo próprio e colocadas aqui no blog (máximo 2 a 3 imagens por pessoa - ainda tinhamos de definir) fossem elementos obrigatórios de uma história a criar por cada um dos participantes.A finalizar a coisa podiamos até petiscar um brunch no Pois Café (o meu novo espaço de eleição ao fim de semana, se bem que longe de casa).
O que acham?
Ps - Convite extensível às caras metades, caso assim o desejem!
...
Foi lentamente que Anna tomou consciência de que era a responsável pelas atrocidades que recheavam as noticias e inebriavam de pânico a população em geral. Mas o que lhe ressaltou desse momento foram as habilidades que os seus “buracos negros da mente” lhe possibilitavam. Do enorme poder que se revestia durante os “apagões”. Nunca, por um único segundo, lhe ocorreu a crueldade.
A mãe, uma mulher de fraco espírito mas profundamente dedicada ao marido e aos filhos, terá sido a única aperceber-se das coincidências dos blackouts e, particularmente, da escolha minuciosa que parecia estar inerente ao processo de selecção das vítimas. Mas antes que Anna pudesse ter encontrado forma de a silenciar, a mãe diligenciara com uma enorme dor e capacidade de resistência à exasperação manifestada diariamente pelo pai, em a internar num sanatório para doentes do foro mental, pertencente à ordem religiosa das Carmelitas, certa de que a proximidade a Deus e à Ciência, a fariam retornar ao caminho dos comuns.
Mas Anna não era uma pessoa comum, e logo-logo encontrou forma de o demonstrar.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Talvez o 20, mas não sei bem
- Deixa-me foder-te Erika, roga-lhe Oddville, com a respiração entrecortada pelo desejo incontrolável.
- Então, então, caro Oddy, já sabes que não é esse o nosso jogo – responde-lhe com escárnio, ciente de o ter já ganho como joguete neste desafio pela morte.
- Não aguento mais, preciso de ti, continuava ele, ao mesmo tempo que lhe procurava levantar a saia, na tentativa vã de lhe arrancar as cuecas, e colocar-lhe o sexo a descoberto.
Afastou-se dele e despiu a camisa e a saia. Via-lhe o sexo erecto tal qual animal enclausurado em luta pela liberdade, ao dislumbre da sua semi nudez, e não pode deixar de sentir prazer. Apesar de todo o asco, excitava-a enormemente a imagem dum velho como Oddville a desejá-la com tamanha sofreguidão
- Despe-te, ordenou-lhe ao mesmo tempo que retirava da pasta Hermés, o chicote feito de crina de cavalo lusitano, oferta bondage do seu último amante. Um português. Cirurgião. Plástico. Horácio Quintanilha. O mesmo que a encontrou praticamente moribunda no quarto do hotel de Paris, aquele com os debruns cor de rosa. Aquele em que tinham deixado para morrer. Aquele em que o seu grande amor a tinha deixado para morrer. Foi Quintanilha que lhe restituiu a vida, a alma, o desejo, e a sede de vingança. Era um homem bom e por isso fácil de manipular. O seu fetiche sexual ajudava. Restitui-lhe também o rosto e o corpo como se os anos não tivessem passado, e foi ele que a renomeou de Erika. O mesmo nome, que anos antes havia escolhido para a filha que carregava no ventre. A filha por nascer. Coisas do destino ... ou não.
- Põe-te de quatro – ordenou com revigorada raiva a Oddvile.Olhou para a triste figura que se prostrava aos seus pés. E não conseguiu deixar de rir com prazer. Oddville todo nu, aos seus pés, como um cão, um cão não, não porque os cães são seres fiéis e companheiros. Um porco, sim um porco a chafurdar na merda. Sentia a raiva a crescer, e apoderar-se do pouco bom senso que ainda lhe restava. Tinha sido Oddville o mandante do seu assassinato, e era chegada a hora do retorno.
Chicoteou-o. Uma, duas, três vezes. O porco parecia gostar. Ordinário!
Sentou-se nas suas costas e ouviu-lhe o gemido de prazer. Acariciou as crinas rebeldes do chicote, e num movimento circular de mãos, rodeou-lhe o pescoço.
- Sabes Oddvile, soprou-lhe ao ouvido entre chupadelas que sabia lhe aumentavam a tesão - vou-te contar uma história. Uma história que te quero contar há muito. A mesma que esperas encontrar no ficheiro codificado que está no envelope cor parda. Comecemos pelo título, a ascensão e queda de Michael Oddville, agente do MI-5, continuava a sussurrar-lhe ao ouvido enquanto lenta e dolorosamente apertava nas mãos as crinas que torneavam o pescoço do seu pior inimigo, e o sentia a perder a vida.