terça-feira, 17 de março de 2009

Rap do amigo Lucas

Nando gosta de ser amado

YEH

Nando não está nada ralado

YEH

Nando vai contrariar o fado

YEH

E vai casar apaixonado

YEH

cá estamos :)

Levitava quando se afastou dela. Podia jurar não sentir os pés em contacto com o chão enquanto corria de felicidade, impossível de conter. Corria. Não que gostasse particularmente de correr mas era premente chegar depressa ao pé do seu grande amigo, Lucas, seu confidente de toda a vida, para lhe contar. Talvez escrevesse uma letra. O Lucas é rapper e decerto encontrará a batida perfeita para as suas palavras. Para levar aos ouvidos de Maria o quanto a quer, o quanto está feliz com o namoro. Corre. Esquece-se que corre, também, na direcção do bairro onde tem sido miseravelmente infeliz. O amor adoça a vida e neste momento Fernando não consegue pensar em mais nada.

O Primeiro Beijo

A campainha toca e o pátio fica subitamente vazio. Mais rápido que o habitual. Pelo menos foi o que lhe pareceu, quando se deparou só com ela e com a inevitabilidade de a beijar. Apesar imponência do Bloco C – o das aulas de matemática, que não inspirava propriamente, sentia que aquele era o momento. Que o mar tinha recuado, que estava um calor danado e o sol a pique. As mãos transpiradas procuraram abrigo numa pequena sombra que vinha da caleira de zinco. Largaram os cadernos ensopados e exploraram os bolsos de trás das calças de ganga em brasa. Os seus olhos lá se encontraram e fizeram as habituais juras para a eternidade. Ele tentou esquecer por momentos o seu primeiro beijo, concentrou-se neste, comandou-o da forma que tantas vezes imaginara, desavergonhadamente diferente do outro, nervoso, tímido e acanhado. Ela devolveu-lhe os lábios com submissão, indiferente ao coro imberbe que soava na janela ao lado. E ao sabor do outro, seu primeiro beijo.
p.s. inspirada por Nando e Maria :)

Namoro

Fernando ama Maria. É a frase que o Nando vai grafitando, pela noite dentro, nas paredes nuas dos bairros vizinhos ao seu. Fernando ama Maria, nome completo. Tão completo como o amor que lhe enche o peito e ameaça o colapso dos pulmões sempre que Maria se lhe cruza nas escadas do velho prédio, ou no barracão improvisado de sala, lá no liceu. Já nem consegue reter na memória as vezes que lhe tentou pedir namoro. E foi por isso, que numa noite de devaneio, pegou no saco das tintas, e abandonado no desespero da sua incapacidade vocal, pintou na parede em frente ao prédio de sua casa um poderoso e enigmático “Queres namorar?”. Nessa noite Maria tinha ido aos Fados. Chegava tarde, e foi com surpresa que leu na parede outrora branca, na frente do prédio de sua casa, aquele extraordinário e tão aguardado pedido. A mesma surpresa que destinou ao seu amado, quando lhe deixou colado à porta com pastilha elástica, e escrito no verso dum bilhete de metro já usado, as mais bonitas e esperadas palavras de amor. Para o Nando. SIM. Beijos Maria.

segunda-feira, 2 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Isto não é fácil

Nos raros rasgos de lucidez que experimenta Boris sente-se devastado. Olha para Anna a seu lado, no jardim da suposta residência francesa e apetece-lhe chorar. Apetece-lhe esvair-se em lágrimas de desconsolo. Mas não pode. Por ela que já partiu há muito, há que manter a farsa. Anna: cujo corpo vagueia ainda aqui, a seu lado, roçando-lhe a roupa e a alma. Anna que parece nunca esquecer o amor que os entrelaçou para sempre, desde a primeira troca muda de olhares. Anna que perdeu porém, também para sempre, a noção do real. Sabe que a demência de que padece há anos haverá de o levar de vez. Como a ela. Há muito que ela partiu e não mais regressou. Há anos que ela vive a “outra vida”. Mantêm-se unidos pela memória de um amor teimoso, incólume à passagem do tempo e ao avanço da demência. Boris sabe de forma irrefutável que também para ele há-de chegar o dia em que não conseguirá encontrar o caminho de volta. Sabe disso porque ela se perdeu de vez e ele não quer continuar aqui sem ela. Sem ela tudo perdeu a graça. Hoje já não há encanto. É cada vez mais difícil discernir entre o que lhe aconteceu realmente nos seus 34 anos de vida e o que foi fruto da sua (da dela) imaginação insana. Recorda com uma doçura magoada a sua vida outrora normal, com Anna. Não Anna, porra. Isabel. Anna já é dos tempos de loucura. Anna já é dos tempos de Anna e Boris e de todas as outras pessoas que inventaram para apimentarem os dias. Começara tudo por brincadeira. Casaram demasiadamente jovens e fartos que estavam de uma vidinha banal e morna resolveram reinventar-se. Juntos. Se havia coisa de que não duvidavam era do amor que nutriam um pelo outro. Começou por ser coisa de fim-de-semana. Mas cedo perceberam que as brincadeiras e os fetiches já não chegavam. Os chicotes e as flagelações já não os excitavam. As trocas de nome constantes não os preenchiam. As viagens revelavam-se insuficientes. Desvanecera-se o frémito pelos terminais dos aeroportos. Queriam sentir mais. SENTIR MAIS. Queriam ultrapassar-se e viver a sua e outras vidas. Viver desalmadamente não temendo perder. E das trocas de nome, passaram para pessoas imaginadas que rapidamente transpuseram as fronteiras das suas mentes e passaram a povoar-lhes os dias. Davam-se ao trabalho de dar jantares a convidados imaginários em que a mesa era posta a rigor, as melhores garrafas de vinho eram abertas, postas a respirar e saboreadas. A melhor música passava na aparelhagem. E eles os dois dançavam a dança da insanidade. Os dois somente, rodeados das pessoas que quiseram inventar para si. Enlouqueceram juntos, António e Isabel. Boris e Anna. Tanto fazia já. As pessoas que outrora fizeram realmente parte das suas vidas afastaram-se. Olhavam para eles incrédulos. Tentaram ainda, durante muito tempo os mais fiéis, fazê-los ver o que acontecia mas de nada servira. Repudiavam-nos, clamavam legitimidade para fazer o que bem entendessem das suas vidas. E os amigos desistiram. A família desistiu. Um por um saiu de mansinho daquelas duas vidas incompreensíveis. E eles cada vez mais sós, mais se enredaram na insanidade conjunta. Assim enlouqueceram irreversivelmente, António e Isabel. Assim viveram aventuras com envelopes pardos e soros da verdade. Assim frequentaram juntos sessões de psicoterapia que ao invés de os fazerem regressar ainda lhes estimularam mais a imaginação e o devaneio. Assim andaram por Paris e por Lisboa em carros de alta cilindrada. Juntos. Foram pai e filha, amantes, assassinos, espiões armados até aos dentes, foram inimigos e amigos, foram mulheres e foram homens, partilharam e fugiram da realidade "dos outros", juntos, sempre juntos, até ao fim.

O dia em que tudo começara fora o dia em que no prato do gira-discos rodava o vinil com Clair de Lune de Debussy. Melodia com que chegou Oddville às suas vidas. Um homem que mais ninguém conheceu. A partitura que António mais gostava de interpretar, quando tocava de forma magistral o seu piano. A música maldita que de quando em vez, o obriga a regressar à cruel realidade, aquela para a qual já não é possível resgatar Isabel. O seu único e verdadeiro amor, igualmente responsável porém, pela sua desgraça. Pela sua morte. Pela morte e desgraça de ambos.

Olha para o líquido onde diluiu a dosagem fatal com que planeou a morte dos dois. Contempla desolado a bela mulher que tem a seu lado alheia ao plano, ingénua na sua ausência irremediável. Agita a garrafa acima da cabeça diante dos olhos e pensa:

É chegado o fim?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

......

Só se ouviam os seus passos, pancadas secas e cúmplices rasgavam o silêncio da noite. Percorriam jardins da residência francesa, lá dentro Oddville jazia o último sorvo de prazer.

Caminhavam sem se tocar, quer dizer, tocavam-se um pouco. Os seus casacos roçavam mangas, os seus passos ensaiavam o mesmo ritmo. Não era só impressão, eles iam falando assim. Boris sabia que ela tinha cometido mais uma loucura. Ainda bem pensava ele, Oddville era alvo a abater, ninguém melhor que Anna para produzir finais grandiosos. Restava a encenação do derradeiro final, aquele para onde parecia caminhar com ela, ambos lúcidos e aparentemente cientes daquilo que queriam.

Convergiam, por entre sombras mudas para a parte do jardim mais denso. Anna ensaiava as palavras finais, o envelope já não era importante, pensava ela. Não passava de um pretexto menor, o maior, era afinal, Boris. Roçavam mangas. Ela sentia o torpor mole que vinha dele, com isso a angústia ténue e um bocado de amor. Nunca fora capaz de matá-lo. Porquê? Logo ela, de ágil mestria assassina. Talvez ainda se amassem, talvez se tocassem mais que aquelas mangas de casaco, talvez se tocassem constantemente, insinuavam a morte um do outro como se a dança da dor fosse a do amor. A morte trágica era implícita, mas sabida, a música deles. O ideal louco, segredado, composto, executado naquela Partitura que também jazia, há anos dentro de um envelope. A brisa húmida das folhas comovia-a, inebriava-lhe os pensamentos loucos, desconexos, estupidamente crentes.

Boris comandava a passada. Alheio àquela opereta ridícula que viajava no cérebro ao lado.