quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A carta



aqui ao lado, Pedro Vozone produz uma (bem real) pérola em pleno mundo virtual.

Atenção que o Vicente - destinatário desta magnífica carta - nada tem a ver com o nosso primeiro convidado... É o protagonista do verdadeiro romance work in progress, misto de thriller e literatura de viagens, que o Pedro desenha no seu blog.




"Querido Vicente,




As noites geladas aqui passadas sem ti foram fazendo de mim uma mulher igualmente fria, como uma pedra recolhida no Verão na margem dum rio e levada num bolso, em viagem, para depois ser lançada, atirada para o leito dum outro rio, gelado, num país distante, num continente distante, no fim do mundo.Como quem lança um xisto deslizante sobre o rio, na esperança de que siga à superfície e se salve na margem oposta, sei que tudo fizeste para impedir que as coisas se passassem assim. Mas não consigo deixar de me sentir a pedra gelada em que me tornei, que se afundou na travessia. E nem este calor de Junho faz derreter a mínima camada à superficie da rocha basáltica, lisa e impenetrável que agora sou. Isso revela-se na permanente ausência de diálogo; há oito meses que apenas falo para pedir numa loja aquilo de que necessito. Por dentro, também me sinto de pedra e o meu corpo acompanhou-me nesta metamorfose; está mais seco, magro, e move-se com a rigidez própria dum rochedo."Os dias passam como quem espera no silêncio o despertar do vulcão e chegue a hora em que tu, disparado destacado do seu centro, por entre milhares de outros pedaços de magma incandescente, caias sobre mim, abraçando-me e derretendo-me com o teu calor sufocante.Mas nuvens de chuva parecem não querer abandonar a boca do vulcão. E tu não voltas. E tu não explodes e irrompes pela porta da entrada, de braços abertos e enorme ramo de gerberas laranja-fogo e te abraças a mim, a chorar.Eu choro. Choro noite após noite. O fim da Primavera já chegou, cheio de calor, e eu mantenho-me imóvel, fria, baça, chorando.As notícias do dia de hoje levaram para além do limite a dor que sinto. Escrevo esta carta na fé de que nada disto seja verdade, de que o que hoje ouvi já várias vezes sobre a perseguição, o acidente e a morte em plena estrada do alentejo - do nosso alentejo - do "Homem que matou o presidente" não passem duma blague, duma enorme brincadeira de mau gosto, dum enorme dislate. Mas já nada me pode atingir, agora que sou uma fraga. Vou abandonar a casa porque sei que, a esta hora, também já me devem procurar. E se tu - por teres conseguido outra vez, mais uma vez, ludibriar a fortuna - estiveres a ler esta carta, sabes em que praia me juntei aos outros seixos e pedras que a protegem das investidas do mar.




Amor,




Margarida"

2 comentários:

Andreia disse...

Escreve de uma forma que me faz acreditar mesmo que quem escreveu aquilo foi a Margarida, uma mulher. Muito bom! Eu já lhe disse: um dia tiro um dia inteiro para o ler. :)

MóniKa disse...

Gostei muito desta carta de amor.
Mónica