quinta-feira, 23 de outubro de 2008

ROTINA



textos de candidatura - VI, Vanessa Luz



Roque vende flores, desde sempre no mesmo lugar. Todos os dias, carrega numa mota com um mini-atrelado o negócio herdado. Gosta do mesmo caminho, fá-lo há anos. Do sítio onde dorme, perto de Alcântara, faz a 24 de Julho e passa no Mercado da Ribeira, onde abastece. Todos os dias, à porta do Mercado, a sua velha amiga Conceição espera-o, com os baldes cheios de flores a seus pés. Mais que os esporádicos encontros sexuais, Conceição negoceia as flores, trata-lhe das mazelas e burocracias eventuais.
Carregam o atrelado de Roque e depois ele segue para o local de trabalho, perto da Avenida de Roma. A mota tem lugar cativo, entre a passadeira dos peões e o veículo que se segue, de frente para a porta principal de um Supermercado. Da rua fez a sua casa, um lugar herdado do pai e avô.

***

Um dia, o vendedor depara com o fecho inesperado do Supermercado, prevê que com a triste realidade venham as contrariedades ao negócio. Lamenta o quanto foi distraído, talvez tivesse ouvido uns rumores. Nessa manhã um velho passeia um cão e ambos comentam a situação:

- Isto causa aborrecimento a todos, somos um animal de hábitos, não é? Exclama o velho
- A quem o diz! Trabalho aqui vai fazer trinta anos! Ainda sou do tempo em que isto era a Mercearia da Berta. Nunca fecharam isto, sempre se vendeu aqui!
- A Berta?! Que mulherão! Era belíssima, daquela beleza que ofusca … A minha mulher não podia com ela … nesse tempo não havia ASAE, nem coisas dessas.

(Roque fica pensativo)

Uma coisa é certa, a vida às vezes dá-nos oportunidade para mudar. Nunca é tarde. O que é que vai fazer, entretanto?

- Vender flores, que é a minha vida. Não sei fazer outra coisa.
- Tenho que ir, fazer umas compras, a minha mulher está transtornada com isto, sabe como são as mulheres. Vá aparecendo. Adeus, bom dia.

De mota pela cidade, Roque procura novos espaços, um novo lugar.
Resolve então estacionar em frente a um Supermercado.
Abre o atrelado e tira as coisas lá de dentro, com o habitual rigor. Nem repara que do outro lado da esquina está outro vendedor, também ele com uma mota e um mini-atrelado. Quando o vê, Roque desculpa-se imediatamente, lamenta o azar, liga novamente a mota e parte.

***

O dia chega ao fim, Roque enfrenta o pôr-do-sol, faz a Avenida 24 de Julho em direcção a Alcântara, de regresso a casa. A mota faz um barulho estranho e ele é obrigado a parar. Tenta perceber o que se passa, ligar novamente o veículo, que não anda. Está cansado. Contrariado, tira as flores que sobram no atrelado, fecha-o e faz o caminho a pé. O seu rosto reflecte desilusão, e o seu corpo extenuado, cruza-se com pessoas que o olham, ele não repara. De repente o seu olhar fixa-se nuns objectos luminosos. São umas luzes vermelhas, vêm penduradas, por fios, ao pescoço de homens. Todos eles trazem flores, como Roque. São vendedores de flores indianos. Olham estranhamente para o intruso vendedor. Parecem zombies aos olhos de Roque, um jogo de espelhos. Roque sente uma insegurança quase paranóica. Está assustado, tanto que não dá conta de um vendedor indiano que se aproxima. Tem um pato de peluche enfiado num braço, a outra mão agarra um bouquet de rosas. O pato de peluche berra quando o vendedor indiano o aperta, o que realmente acorda Roque. O indiano aponta para os sapatos de Roque e depois aponta para os seus. Tem ténis. São brancos, encorpados, um bom plágio de um modelo da Nike. Diz a Roque que deveria pôr uns ténis como os seus para suportar melhor a labuta. Roque afasta-se bruscamente, ofendido com a comparação. De rastos, lixado com a vida.

2 comentários:

Andreia disse...

ADOREI ESTE TEXTO.

MóniKa disse...

"jogo de espelhos" - quando só nos conseguimos ver reflectidos nos outros.
Mónica