terça-feira, 14 de outubro de 2008

O ursinho Freaky - um conto infantil


"(Envio o que julgo ser uma versão 'one night stand' do suposto Conto Infantil. Nada pesado. Não tenho a endurance de Madonna)", Vanessa Luz




Assim que abriu os olhos o Pequeno poeta deu um pulo da cama.

Ainda era de noite. Estava aflito para fazer xixi, pegou no capacete Mineiro, carregou na luz e foi a correr para a casa de banho. Como já estava acordado, não quis voltar para a cama. Pegou em Freaky, o seu ursinho de peluche, e sentou-se à janela a ver o sol, que ia aparecendo cada vez mais depressa.

De manhã, no carro, a caminho da escola preferia ir calado. Espreitava a rua, carros e autocarros e as pessoas. Parecia-lhe tudo igual mas às vezes descobria coisas novas. Uma grua que mudava de sítio, um autocarro colado a outro, pessoas que corriam de maneira diferente, um cão novo, muitas coisas. Descobriu que Deolinda tinha dois corações, dizia a canção que saia no rádio do carro do pai.

Assim que chegava à escola já sabia o que tinha de fazer, subir as escadas de mão dada, procurar a sua sala de aula, entrar e, dizer um simpático “Bom Dia”. Recebia uma resposta sonora de toda a turma e isso fazia o Pequeno poeta sentir-se alegremente envergonhado. A seguir ia sempre a correr procurar Estrondoso, o seu melhor amigo.

Naquela manhã, Estrondoso não estava. Tinha ficado em casa, doente com varicela, disse a professora. E Pequeno poeta precisava de encontrar um parceiro para o duelo das espadas. Reparou que Sargento estava entretido a fazer um puzzle, mesmo assim Pequeno poeta arriscou e de espada no ar desafiou-o:

- Enquanto houver justiça no mundo o Zorro estará sempre por perto!

Sargento não lhe ligou, girou o dedo dentro do nariz e continuou a fazer o puzzle. O Pequeno poeta ficou aborrecido. Pensava no Estrondoso, com aquela doença da comichão, ele teria percebido o Código de Zorro.

Mas era dia de ginástica. Todos deviam correr como Super-Heróis, de braços no ar, para apanhar a chuva, era assim que diziam as professoras. O Pequeno poeta não entendia porque devia gritar pela chuva, estava sol, afinal que jogo era aquele. Mesmo assim corria e gritava:

- Chuva, chuva, chuva.

No fim da aula de ginástica a turma deitou-se em colchões, no chão do recreio. Deviam ficar em silêncio, de braços estendidos a olhar para o Céu. Pequeno poeta olhava para o Céu, conseguia ver desenhado nas nuvens uns sapatos de Menina mãe. Viu também uma nuvem cinzenta, teve vontade de gritar ‘Chuva’, mas ficou em silêncio, preferiu olhar bem para ela. Gloriosa foi mais rápida, não teve vergonha e gritou ‘Chuva, Chuva’. Logo depois começaram a cair uns pingos grossos, cada vez mais grossos. Os maiores pingos que eles alguma vez tinham visto. Todos correram para a sala de aula, encostaram-se os lábios às janelas a ver o que chovia, todos menos o Pequeno poeta que estava muito pensativo, sentado a um canto a olhar para festa da chuva e para a sorte de Gloriosa.

Ao menos naquela tarde o lanche era especial. Havia bolo, iam cantar os ‘Parabéns’. Os pais do Engolidor levaram um grande bolo de chocolate, com quatro velas, forrado de Smarties. Todos gostaram daquele bolo. A seguir ao pão com queijo, cantaram os parabéns. O Engolidor deixou Escultural ajudá-lo na tarefa de soprar as velas. Entretanto o Cowboy, à socapa, ia tirando uns smarties do bolo. Depois todos começaram a tirar smarties. O Pequeno poeta foi a correr e ainda apanhou um. Mas não teve sorte, a Vigilante tirou-lho das mãos e deu-o ao Engolidor que chorava por causa do ataque ao bolo. Bateram mais palmas entre lágrimas e a partir desse dia o Pequeno poeta passou a chamar ao Engolidor, o Temível Engolidor de Smarties.

Nessa tarde Menina mãe chegou atrasada à escola. Vinha com o cabelo de cor diferente, encarnado. O Pequeno poeta assustou-se, não lhe parecia Menina mãe. Foram os dois comer torradas ao café. O Pequeno poeta estava triste. Não queria comer.

- Não gosto da escola, disse ele
- Mas gostas de ir à escola? Perguntou-lhe Menina mãe

O Pequeno poeta não respondeu, ficou a pensar naquilo, a pergunta não fazia sentido. Só disse que no seu aniversário queria uma Torre de Gomas em vez de um bolo. Menina mãe achou boa ideia.

Há noite Boneca de borracha, foi visitá-lo. Jantaram juntos. Diziam aos pais que não queriam ervilhas, que não tinham que ser engraçadas só por serem pequenas bolas. Riam-se, pediam alface, juravam comê-la. E, realmente, naquele dia comeram a sua primeira Folha-de-Alface. Foi uma experiência que Pequeno poeta e Boneca de borracha nunca mais se esqueceram.

Depois de fazerem a digestão decidiram dar uns pulos em cima da cama. Boneca de borracha fazia grandes acrobacias. Magoaram-se algumas vezes mas decidiram continuar a pular, esperaram que os seus pais lhes pedissem 30 vezes e aí pararam. No último pulo o Pequeno poeta caiu desajeitadamente em cima de Freaky. Ficou desolado, o urso tinha ficado com a boca ao lado, uma careta ridícula, Freaky tinha mudado e o Pequeno poeta não parava de chorar. O tenor tinha engolido um rato.

Era hora de ir para a cama, no outro dia havia escola.

O Pequeno poeta agarrou-se a Freaky, olhava-o de lado, mesmo assim deu-lhe um abraço.

Deitaram-se os dois a ver as estrelas fluorescentes coladas no tecto do quarto. Diziam que aquilo era o Céu, mas ele não percebia bem o que era o Céu. As estrelas no seu quarto eram parecidas com as da Noite e, havia uma Lua, mas a Lua verdadeira era diferente daquela, ia mudando. Tinha os seus dias.

Sem comentários: